Friday, December 23, 2011

A prática do desprendimento e do desapego. Relatos de viagem. Ares de Rio de Janeiro.

Desprendimento e desapego são palavras que vêm rondando minha cabeça nestes últimos dias. Penso em amor com desprendimento e amor com desapego: como se ele fosse um botão acionado em nosso corpo/alma e assim estaríamos aptos a viver com desprendimento e desapegados. de tudo e todos. Duas palavras fáceis e bonitas em teses, em teorias, muitas vezes até nos diálogos práticos. Mas convenhamos sem falsas filosofias: desprendimento e desapego são exercícios diários de um alterego desassossegado.

Resolvi comprar minha passagem ao Rio de Janeiro esta semana. Tive sorte (como sempre) consegui há menos de 2 dias de viagem ainda um preço bem especial de ida e volta. Decidi que iria pedalar dois dias no Rio. Num ato de total desprendimento e desapego, afinal, ando apegada demais a uma rotina sufocante e prendida demais aos fantasmas do 'estar no mesmo lugar' por muito tempo. Hora de estrada. De cheiro de aeroporto. De ser/estar erodar sem grandes preocupações. Na mala, desta vez, quase nada. A menor mala que já tive...diria que nem as expectativas são tão maiores. Sabe quando apenas dá vontade de ir durmir fora e longe de casa? Sim, é isso. Viajar sozinha às vezes é tudo que se precisa e internalizar os desassossegos da vida. E como todos já sabem, por aqui (em mim) eles não são poucos. O bom de viajar sozinha e sem intenção de fazer grandes amizades é o poder do desprendimento e desapego ao anonimato. E não digo do meu anonimato, que por sinal estou longe de sofrer com a falta dele. Mas, o anonimato das pessoas com quem converso. O tio que juntava o lixo da praia no final do dia e me desejou um ótimo natal. O salva-vida lindooo do posto 1. A senhora do aeroporto que há 4o anos andavam em bondinhos, não em peruas.

este anonimato me dá apenas a margem e liberdade de me apropriar de suas breves histórias e entender em suas rugas pequenas biografias. No Rio está tão quente como o sul, no Rio algo está a latejar...Pulsamentos divagantes de quem quer apenas caminhar, pedalar, caminhar, sem muito conversar, sem muito ter que refletir sobre as coisas...Mundo...dá pra me deixar em silêncio?

Mas, vocês não fazem ideia de qual é o maior desprendimento desta viagem...Até as oito horas da manhã de hoje, não tinha certeza se conseguiria viajar com minha canon 7d. Já estava conformada e consegui emprestado uma Sony Cyber-shot. No fim, acabei conseguindo trazer a minha câmera e também a do Cris, mas não é que decidi me desapegar do peso da minha câmera e me adentrar no mundo 'cybershotiano'. Decisão difícil, pois, confesso não sei fotografar com estas câmeras que não são DSRL'. Sorte minha, claro, desde cedo ter tido a oportunidade de ter uma clássica Zenit com uma belíssima 50mm, coisa para poucos. Mas, fotografar com uma câmera digital 'comum' é o exercício de um outro tipo de olhar, que não depende só de limitações técnicas, mas sim, de um novo olhar, de uma nova forma de enquadrar, de dar cor, forma, constraste ao que praticamente não se tem como controlar...Odeio este modo automático da vida....

Bueno, ao final do dia com as fotos que fiz, sem o peso da minha 7d cheguei a conlusão que de fato o olhar é que faz fotos (divagação filosófica para quando voltar). Por enquanto, quero ordenhar nuvens, ludibriar areia....E como gosto de ver a sombra da água do mar se dissipando na areia. è uma bela foto para se imaginar....sem ter que se clicar....

O mar vem...bate na areia...deixa sua gosma...aos poucos se desfaz como poeira...eira, eira...estou na mar, bem na sua beira...

Um verso para finalizar a noite, hora de sair para a rua atrás do samba que anda a batucar nos meus ouvidos...Sozinha. Problemas com isso? Dois: 'os homens continuam a questionar como podem mulheres viajar sozinhas (interpelação de dois taxistas no dia) e eu continua sendo confundida no meu próprio país como turista americana, irlandesa e até francesa...

Good, Good Night...ao ouvir uma americana aqui do meu lado falando com sua família via skipe. Como adoro um hostel...

Saturday, December 17, 2011

Capítulo 10 de uma longa história madrugosa...

Tudo começou com Homero Pivotto - Capítulo 1.
O capítulo 2 fico com Alexandra Zanela
O capítulo 3 seguiu com o Tigre
O capítulo 4 ficou por conta do Chagas
No capítulo 5 Fani
No capítulo 6 foi a vez do Márcio Grings
No capítulo 7 Tati Py
O capítulo 8 Fernanda Meneghel conta mais...
No cápítulo 9 Ana Bittencourt me convoca....

E eu depois de dois anos com o peso na consciência por ter quebrado esta corrente, retomo no cápítulo 10 a história daquela longa noite de Ferreira por entre ruas, segredos e que bela história. daquelas que só se vive sob efeitos piscóticos, ou então quando se junta este povo bem louco, que um dia estiveram juntos em muitas noites, hoje, todos por aí conseguem ainda se reencontrar nessas histórias. SEguimos a saga, então! E passo a bola para Carolina Carvalho continuar....


Capítulo 10 - Parado na porta...um lapso de memória

Que longa noite aquela. Fria. Ferreira só queria beber mais um pouco de vinho sossegado. E a essas alturas parado na porta de Rouxinol, não consegue entender exatamente quando foi o ponto de virada da sua história. Nessas alturas a madrugada estava com teor mais doentio do que os próprios filmes de Almodóvar e isso que ele nem tinha conseguido assistir ainda ‘A pele que Habito’. No fundo, acho que ele preferia mesmo que seu filme ‘madrugoso’ tivesse sido menos dramático e beirasse as antigas comédias de Wood Allen. Pensou que tudo isso poderia ser apenas o efeito da erva nos seus pulmões, depois de fumar aquela ponta no início da noite.

Mas, porra! Ele fumava maconha a mais de vinte anos e não poderia ser ela responsável por todas as visões que teve esta noite. Visões? Melhor se assim o fossem, agora mais do que nunca, no alto da escada do cortiço, ele sabia que tudo que viu não tinha nada de ilusório. Nem mesmo a cena hilária de um anão vestido de cowboy montado num pônei (a cena era ainda mais hilária quando o anão, pelado, dormia com a puta de vestido branco). Plácido Fortes estava certo quando, tantas vezes, o advertiu sobre aqueles obscuros segredos das noites pelas redondezas do Bairro. E, também, convenhamos Ferreira estava longe de conseguir criar imaginações tão férteis como as situações que acabara de vivenciar.

E agora para completar estava com esta obsessão na vingança à Dolores. Ferreira de costas ao pé da porta de Rouxinol, pensa que é uma única escolha e ele encerra a sua participação neste 'filme'. Poderia escolher descer aquelas escadas - num momento único de lucidez -, sumiria pela penumbra da madrugada e esqueceria que tudo isso aconteceu. Mas e a foto que arrancou das mãos de Plácido na hora de sua morte? E a promessa silenciosa que fez ao velho no banheiro do bar? Tudo estava ali atormentando seu resto de madrugada, até mesmo os resquícios de miolo do velho em sua roupa. Ele não poderia ignorar o desenrolar da noite, se era destino ainda não poderia entender, o fato é que Dolores não poderia ter entrado naquele quarto, e ele era responsável por tirá-lo dali.

É... mais uma vez se confirmava a frase que insistia em voltar na sua memória ‘nunca diga dessa água não beberei’, mas convenhamos já tinha bebido demais daquela água por esta noite. Mas quando água bate na bunda tem que aprender a nadar, não é mesmo?
Ferreira tinha visto toda a cena: o anão por mais escroto que poderia ser - e não ter seu órgão sexual nada avantajado-, parecia usar outros instrumentos como ninguém. A ponto de Ferreira ver Rouxinol aos poucos se entregando sem resistência num coito invejável para qualquer mulher. Maldito anão – esbravejou em silêncio. Virou as costas para a cena do casal dormindo e (depois de um grande lapso de memória...) avista o pônei que inquieto permanece ao pé da escada.

Estranha cena aquela: o pônei parecia mais nervoso que o próprio dono em busca da puta na noite. Ah, se este pônei falasse. Ferreira de imediato se deu conta que não tinha muito o que fazer, se invadisse o quarto, corria o risco de levar um tiro nos miolos, pois o anão segurava na mão (mesmo dormindo) um revólver. E morrer ainda é cedo para esta história – pensou. Olhou para o pônei, o pônei o olhou. Não rolou sentimentos, mas com certeza a dupla convicção de que eles não tinham parado ali por mero acaso. Será que Ferreira tinha descoberto o ponto fraco do anão?

(Um parêntese na história – já com parêntenses) Desde que o irmão mais velho decidiu criar pôneis, Dolores sentiu um alento na alma. Não só por que os animais condiziam com seu tamanho, ou por que seriam a porta de entrada para uma reviravolta financeira na suas vidas.
Mas pelo simples fato de que Dolores nunca teve um ‘bichinho de estimação’. Por toda rejeição que sofreu na vida, nunca acreditou conseguir se apegar a qualquer outra espécie viva. Mas aquele pônei tinha algo de incomum. Talvez tenha sido amor/tesão à primeira vista. E para quem nunca tinha conseguido se dar muito bem com mulheres, um pônei seria uma grande – aliás, pequena e condizente – opção. E sem falar que pônei não fala, não finge orgasmo e não precisa pagar R$ 100 reais por programa. (fecha parênteses)...

Ferreira tinha intuído que o pônei seria o caminho de sua vingança e mote para conseguir tirar Dolores do quarto de Rouxinol antes que o estrago da noite fosse maior...Cinco e meia da manhã ele desce as escadas, se aproxima do pônei que arredio dá um passo para traz, afinal ele não estava vestido de cowboy como o dono do bicho. Montar seria impossível, tudo bem que ele não era o homem mais alto e forte do mundo, mas não se arriscaria há uma ponalgada (se em cavalo temos uma cavalgada, em pônei temos ponalgada?) Pegou pela rédea do bicho e saiu pelo caminho apertado e contrário que entrou no velho cortiço. Pelas suas costas ao longe ainda restavam resquícios de fumaça do acidente; a porta entreaberta do quarto de Rouxinol – a bela do vestido branco. Para onde ele iria com aquele pônei? Boa pergunta! Esperava até a próxima esquina, entender qual era mesmo o seu grande plano, a única coisa que tinha certeza era de que o pônei era o caminho e ainda lhe restavam R$ 5 amassados no bolso....