Saturday, December 17, 2011

Capítulo 10 de uma longa história madrugosa...

Tudo começou com Homero Pivotto - Capítulo 1.
O capítulo 2 fico com Alexandra Zanela
O capítulo 3 seguiu com o Tigre
O capítulo 4 ficou por conta do Chagas
No capítulo 5 Fani
No capítulo 6 foi a vez do Márcio Grings
No capítulo 7 Tati Py
O capítulo 8 Fernanda Meneghel conta mais...
No cápítulo 9 Ana Bittencourt me convoca....

E eu depois de dois anos com o peso na consciência por ter quebrado esta corrente, retomo no cápítulo 10 a história daquela longa noite de Ferreira por entre ruas, segredos e que bela história. daquelas que só se vive sob efeitos piscóticos, ou então quando se junta este povo bem louco, que um dia estiveram juntos em muitas noites, hoje, todos por aí conseguem ainda se reencontrar nessas histórias. SEguimos a saga, então! E passo a bola para Carolina Carvalho continuar....


Capítulo 10 - Parado na porta...um lapso de memória

Que longa noite aquela. Fria. Ferreira só queria beber mais um pouco de vinho sossegado. E a essas alturas parado na porta de Rouxinol, não consegue entender exatamente quando foi o ponto de virada da sua história. Nessas alturas a madrugada estava com teor mais doentio do que os próprios filmes de Almodóvar e isso que ele nem tinha conseguido assistir ainda ‘A pele que Habito’. No fundo, acho que ele preferia mesmo que seu filme ‘madrugoso’ tivesse sido menos dramático e beirasse as antigas comédias de Wood Allen. Pensou que tudo isso poderia ser apenas o efeito da erva nos seus pulmões, depois de fumar aquela ponta no início da noite.

Mas, porra! Ele fumava maconha a mais de vinte anos e não poderia ser ela responsável por todas as visões que teve esta noite. Visões? Melhor se assim o fossem, agora mais do que nunca, no alto da escada do cortiço, ele sabia que tudo que viu não tinha nada de ilusório. Nem mesmo a cena hilária de um anão vestido de cowboy montado num pônei (a cena era ainda mais hilária quando o anão, pelado, dormia com a puta de vestido branco). Plácido Fortes estava certo quando, tantas vezes, o advertiu sobre aqueles obscuros segredos das noites pelas redondezas do Bairro. E, também, convenhamos Ferreira estava longe de conseguir criar imaginações tão férteis como as situações que acabara de vivenciar.

E agora para completar estava com esta obsessão na vingança à Dolores. Ferreira de costas ao pé da porta de Rouxinol, pensa que é uma única escolha e ele encerra a sua participação neste 'filme'. Poderia escolher descer aquelas escadas - num momento único de lucidez -, sumiria pela penumbra da madrugada e esqueceria que tudo isso aconteceu. Mas e a foto que arrancou das mãos de Plácido na hora de sua morte? E a promessa silenciosa que fez ao velho no banheiro do bar? Tudo estava ali atormentando seu resto de madrugada, até mesmo os resquícios de miolo do velho em sua roupa. Ele não poderia ignorar o desenrolar da noite, se era destino ainda não poderia entender, o fato é que Dolores não poderia ter entrado naquele quarto, e ele era responsável por tirá-lo dali.

É... mais uma vez se confirmava a frase que insistia em voltar na sua memória ‘nunca diga dessa água não beberei’, mas convenhamos já tinha bebido demais daquela água por esta noite. Mas quando água bate na bunda tem que aprender a nadar, não é mesmo?
Ferreira tinha visto toda a cena: o anão por mais escroto que poderia ser - e não ter seu órgão sexual nada avantajado-, parecia usar outros instrumentos como ninguém. A ponto de Ferreira ver Rouxinol aos poucos se entregando sem resistência num coito invejável para qualquer mulher. Maldito anão – esbravejou em silêncio. Virou as costas para a cena do casal dormindo e (depois de um grande lapso de memória...) avista o pônei que inquieto permanece ao pé da escada.

Estranha cena aquela: o pônei parecia mais nervoso que o próprio dono em busca da puta na noite. Ah, se este pônei falasse. Ferreira de imediato se deu conta que não tinha muito o que fazer, se invadisse o quarto, corria o risco de levar um tiro nos miolos, pois o anão segurava na mão (mesmo dormindo) um revólver. E morrer ainda é cedo para esta história – pensou. Olhou para o pônei, o pônei o olhou. Não rolou sentimentos, mas com certeza a dupla convicção de que eles não tinham parado ali por mero acaso. Será que Ferreira tinha descoberto o ponto fraco do anão?

(Um parêntese na história – já com parêntenses) Desde que o irmão mais velho decidiu criar pôneis, Dolores sentiu um alento na alma. Não só por que os animais condiziam com seu tamanho, ou por que seriam a porta de entrada para uma reviravolta financeira na suas vidas.
Mas pelo simples fato de que Dolores nunca teve um ‘bichinho de estimação’. Por toda rejeição que sofreu na vida, nunca acreditou conseguir se apegar a qualquer outra espécie viva. Mas aquele pônei tinha algo de incomum. Talvez tenha sido amor/tesão à primeira vista. E para quem nunca tinha conseguido se dar muito bem com mulheres, um pônei seria uma grande – aliás, pequena e condizente – opção. E sem falar que pônei não fala, não finge orgasmo e não precisa pagar R$ 100 reais por programa. (fecha parênteses)...

Ferreira tinha intuído que o pônei seria o caminho de sua vingança e mote para conseguir tirar Dolores do quarto de Rouxinol antes que o estrago da noite fosse maior...Cinco e meia da manhã ele desce as escadas, se aproxima do pônei que arredio dá um passo para traz, afinal ele não estava vestido de cowboy como o dono do bicho. Montar seria impossível, tudo bem que ele não era o homem mais alto e forte do mundo, mas não se arriscaria há uma ponalgada (se em cavalo temos uma cavalgada, em pônei temos ponalgada?) Pegou pela rédea do bicho e saiu pelo caminho apertado e contrário que entrou no velho cortiço. Pelas suas costas ao longe ainda restavam resquícios de fumaça do acidente; a porta entreaberta do quarto de Rouxinol – a bela do vestido branco. Para onde ele iria com aquele pônei? Boa pergunta! Esperava até a próxima esquina, entender qual era mesmo o seu grande plano, a única coisa que tinha certeza era de que o pônei era o caminho e ainda lhe restavam R$ 5 amassados no bolso....

1 comentários:

Marcelo R. Rezende said...

História interessante: estava sem internet e fui ver meu blog pelo celular. Visto os comentários, cliquei em Próximo Blog pra ver no que dava. E deu o seu. Adorei aqui. Parabéns pela escrita, linda!