Monday, November 14, 2011

Prefácio de um final de semana...de um início de semana!!


Não me preocupo quando durmo pouco. me preocupo com os dias em que durmo demais. A cama é meu desassossego que pode se transformar em algo triste. Nos dias tristes, sem aquela abrupta vontade de viver e se revolver...Assim, prefiro estes dias em que durmo pouco, em que sinto vento gritando nos meus ouvidos. E ele está há três dias a gritar...como se gritasse para sua voz ser mais forte do que a de todos os poetas juntos.

Foi um final de semana com cheiro de viagem...de estrada..hora de me reencontrar. Passei o sábado jogada no chão trancada em casa. Bom final de semana para debruçar-me em Fernando Pessoa, Manuel de Barros, para descobrir novas narrativas dos livros na cabeceira...Mas fiquei jogada no chão...meu corpo gosta de chão!! (de areia...fiquei a suspirar - anda o mar longe/perto). Ontem à noite, talvez tenha ouvido um dos depoimentos mais interessantes dos últimos tempos. Foi no Fantástico, fiz questão de parar na frente da TV para ouví-lo. Amir Klink fala que já teve depressão em sua vida, mas que nunca no mar...fala de seus desassossegos e que talvez não tenha melhor parte na vida que essa: de partir e de chegar...'alma de desbravador, de aventureiro' que fica meses no mar, mas que sabe da paz também que é um dia voltar...Mas não pode haver paz maior que a de partir...talvez a de voltar...no mar ele diz nunca ter se sentido sozinho, lugar em que pode fazer tudo, mas que também pode fazer quase nada...uma liberdade inexplicável...E como explicar a sensação de liberdade e de uma possível solidão com o 'mar'...

Não tenho como não dizer que não me encontro neste depoimento...Já tive alguns sintomas de possível depressão, apesar de sempre ter um processo de auto-recuperação constante. Não sei se exatamente de depressão, talvez mais de uma profunda tristeza, de quem não tem filosofias: mas tem sentidos...Mas nunca senti qualquer sinal de desencontro na estrada...em viagens...É na estrada nos encontros e desencontros que me reencontro, me reconecto...Isso é triste, sim, quando ainda não se descobriu a forma de afugentar-se na estrada a vida toda. Quem sabe logo consiga...Mas, é muito feliz o momento em que se consegue reconhecer que existe um 'lugar' em que você consegue se reconectar com suas referências, com o seu possível lugar no mundo....Na estrada...no roxo doce das flores no meio da tarde de vento em que saio para fotografar. Lugar, este que é não ter lugar...na passagem para... no trânsito para...no cheiro das gentes, das suas histórias..e eu sou viciada no encontro de histórias pela estrada...Talvez seja um ser privilegiado por encontrá-las, ou talvez, apenas me permita...Conheço mais gente que compartilha desses sentimentos...

Domingo acordei...depois de passar quase dois dias jogada no chão da sala...Abro meu e-mail...senti vontade de fazer amor com as palavras...E elas são livres, viajam, nos dão a liberdade de sonhar...de estar, sem estar!! Se pudéssemos ser a leveza e o peso de 'não-vidas' - a vida das não complicações - acredito que existe! ....apenas fazer 'amor', como quem sabe que beijar a nuca é bom, que dedilhar cada parte da minha espinha é me transportar...Foram poucas as palavras, mais o desenho de bocas...e eu me senti a viajar...invadiu-me dia, noite, perversos recantos da minha natureza...Invadiu-me ao encontro de Pessoa:

'Não me importo com as rimas. Raras vezes. (...) Penso e escrevo como as flores têm cor. Mas como menos perfeição no meu modo de exprimir-me. Por que me falta a simplicidade divina. De ser todo só o meu exterior. Olho e comovo-me, Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado. E a minha poesia é natural como o levantar-se vento.'

1 comentários:

CCTVkarachi said...
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