Tuesday, November 15, 2011

Dos cheiros da praça...Será que é possível sumir de vidas??



A verdade é que todos gostam de contar histórias, ou então, de contar-se em histórias. Eu não só gosto de contar e de escrever como de me encontrar com boas histórias. E esse é o grande privilégio de trabalhar com comunicação, independente da forma como se escolheu ouvir e contar tantas histórias. Nunca soube ao certo por que escolhi estudar jornalismo, provavelmente seja pelo único fato de que o meu grande sonho sempre foi contar história. Pouco fiz no jornalismo, mas vivo a me encontrar com as histórias e seus personagens.

E desde cedo, como sempre afirmo, foram as histórias de Érico Veríssimo que me educaram, que me ajudaram a sonhar a sentir o vento no rosto ao imaginar um balanço no fundo do pátio de Clarissa, ou a desbravar o mundo com o Capitão Rodrigo. Sonhei, sonho e continuarei sonhando em contar histórias, seja pela foto, pelo documentário, pela televisão, pelo texto, ou então, pelo simples ato de ouvir uma história e recontá-la. A literatura, o ato de contar, de narrar, nos leva a isso....a sonhar...tão simples, não é mesmo?

E estar na praça no meio das gentes não pode ser lugar mais propício para se ouvir e encontrar-se com boas e interessantes histórias, ou ao menos pessoas que vão passar a fazer parte da nossa (minha) história. E a 57° Feira do livro de Porto Alegre de alguma forma já mudou minha história. Foi ali pelas vielas da 'bibliodiversidade' que me reencontrei com gentes, que conheci outras gentes, que palavreei sem nexo, que dei sentido ao meu trabalho e às minhas vontades...Estes últimos 15 dias foram mais que iluminados, foi a contaminação da minha vida pelo olhar de histórias, de outras histórias e vontade de contar muitas histórias e por que não as estórias.

Foi por ali que conheci hoje um senhor que construiu um 'lançador de flechas', pena que ele nasceu só alguns séculos atrasado, mas ele precisava contar sua história, que começa ainda na infância quando sonhava em atirar flechas. Foi ali também, que estes dias conheci um senhorzinho que contou-me a história de um menino, ele queria fazer um filme lá pelas bandas da serra. Não duvidei da bela história...E Foi por entre estes dias mais distantes que conversei com outro senhor. Este queria me contar a história de uma pequena vila no interior do estado, por sorte eu já o conhecia o lugar: Minas do Camaquã. E convenhamos tem muita sorte quem conhece e sente a energia deste lugar...Eu por entre minhas histórias, lhes conto que numa noite de festa em Minas do Camaquã já fui até abdusida. E quem pode me tirar o direito de palavrear e assim exercitar a licença poética e ficcionar sobre o mundo?

Foi por um final de tarde na feira do livro nesta praça que conheci um tal 'sumidor de mundos e de vidas'. Era jovem e escritor..vinha de longe e pelo jeito gostava não só de contar estórias, mas de sonhar...me enamorei pelas entre linhas do seu discurso nada histórico e me pus a criar. Mas, a feira do livro em meio a sua gentes, seus cheiros, seus gostos de flores amarelas que caem, também é lugar de lembranças...Eu já tinha peregrinado por vielas em outros tempos, há uns sete ano atrás, quando vim pela primeira vez a Porto Alegre fazer um estágio como fotógrafa. Bons tempos aqueles, lembro-me da minha primeira pauta no jornal especial da feira, foi com uma das prostitutas que trabalha na praça quando ela não está assim tãooo habitada. Passeamos com ela e com sua história: a história de quem pouco viu livro na sua vida, mas que do trabalho na praça em tempos sem feira, consegue levar livros para seus filhos.

Foi nessa mesma lembrança que vejo o jovem introspectivo que conheci na época, o portador de um olhar para lá de misterioso. Nos reencontramos somente anos depois quando ele me manda um e-mail ainda mais estranho palavreando segredos...por certo mais uma linda história para contar...E assim é estar na praça: com os livros, com as gentes, com os cheiros, com os tons de final de tarde...com o cheiro de pipoca doce e com a chance de encontrar-se com novas, velhas, repetidas e fugitivas histórias...Esta feira já me deixa saudade de suas flores amarelas, me deixa saudade também do que eu ainda nem vivi...'a história de um sumidor de mundos e de vidas'. Mas será que é possível alguém sumir de nossas vidas, quando já faz parte de uma pequeno palavreado de sua vida?

EStou certa de que não...Bom, hora, oras...Hora de voltar ao mundo 'i-rreal' da fantástica 'realidade' dos meus dias....
Já sinto saudade de ti flores amarelas caindo sob a luz do sol no final de tarde de Porto Alegre....

1 comentários:

IM said...

Que belleza!