Crônica para o 'Guardador de guarda-chuvas'...
Pele densa...morena/ Tua boca, meu piano. Escrevi no guardanapo molhado sobre a mesa. Cheiro de suor, de cerveja, de um lugar pequeno com luz baixa. Não passava das nove da noite quando adentrei pela pequena porta de madeira. Na frente um letreiro de neon. Me senti em casa, possivelmente por me sentir entrando em um filme. Ela me olha e diz, 'aqui é como entrar e sair de um filme literalmente'. No canto da porta do apertado espaço um piano é dedilhado suavemente, em poucas vezes com um rompante que faz a alma balançar.
Ela está numa mesa ao lado, sorri como quem se abre à primavera. Seus cabelos densos e cacheados caem sobre a pele clara. Sinto-a invadindo minha retina, não poderia ser diferente em meu sexo. Ele chega logo depois, se debruça no balcão do bar. Pede uma pinga, na verdade pede duas. A cachaça desce agressiva em sua garganta. Vejo seus olhos reluzirem. Ele a olha. Ele me olha. Ela me olha. Nós nos olhamos. Um trio amoroso desconhecido e descompassado ao ritmo do piano que insiste em ludibriar notas falsas. Escrevo alguns versos em silêncio na mesa, enquanto todos riem alto e tentam mudar o mundo por meio de hipócritas filosofias. Não acredito em nada que dizem, não sei se acredito nem mesmo em estar ali. Estaria num filme e me sentia assim. Tomei mais uns goles e vou ao banheiro.
Passo...ele me olha, ela me olha...Eles se olham. Nós nos olhamos. Entro no banheiro, ela também. Sua mão, minha mão. Nada demais apenas fazemos amor por meio do espelho, do indevido espelho naquele banheiro pequeno. No balcão do bar, ele continua lá, bebe sua terceira pinga e pede mais um chopp. Vem ao meu encontro muito convicto com um papel rabiscado na mão. Lhe dou meu papel, ele me entrega o seu. Olhei-o sem profundidade, não conseguiria aprofundar-me em sua pele morena. O silêncio do meu olhar, ecoa pelas paredes úmidas e dos versos rabiscados ele me sorri.
Eu sento e leio sua frase. Olho para ela, que com a bolsa na mão se despede sem falar. Ele mais uma vez insiste em me olhar. Chego ao seu lado e descubro por fim que ele é meu 'guardador de guarda-chuvas'. Olho para traz (com medo de olhar) e vejo ela a sombrinha resguardada que segue caminho fechada na 'chuva'. O piano insiste em gritar canções baratas no meio da noite.
Toca meu celular. Acordo do meu filme e volto a suspirar. Hora de voltar a roteirizar meu samba torto do piano já sem voz...
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