Thursday, October 20, 2011

RELATOS DE VIAGEM 1...ANTES DA FRONTEIRA

Chovia torrencialmente lá fora. Estava à caminho da fronteira. O último passageiro do ônibus desceu em Tucunduva, permanecemos no ônibus o motorista e eu. Juntei minhas malas e me mudei para a cabine com o simpático rapaz de Santa Rosa. Quatro horas da manhã, cevamos um bom mate e começamos a papear longamente. Tinha cansado de divagar sozinha no fundo do ônibus. E continuava chovendo torrencialmente lá fora, cena linda de se ver quando o céu relampejava e era possível ver o clarão da estrada vazia. Tenho que admitir, nessas minhas andanças, talvez essa tenha sido uma das cenas mais exóticas, ao ponto de às 4 da madruga matear com o motorista do ônibus. Mas, afinal quem iria para as bandas de Porto Mauá a essa hora num dia chuvoso como aquele?

O jovem me contava dos seus bailes, de que tinha começado como motorista de caminhão aos 19 anos e que quer voltar para este serviço, mas agora com caminhão próprio...entendo, entendo, aliás, de tanta viajar de carona de caminhão conheço bem essas histórias. Aliás, saudade de uma boléia cortando estrada. Assim, também lhe contei um pouco de minhas 'indiadas', nos tornamos em meio hora quase cúmplices, pena que a música de fundo era sertaneja. Bueno...Era um guri do bem e por mais que minha mãe sempre ensinou que não se deve falar com estranho, sempre acredito que na estrada nunca encontrei estramos mas alguém que compartilha, quem sabe, dos mesmos vazios e plenitudes que yo.

Chegamos em Porto Mauá, às cinco da manhã, a primeira balsa só cruzava o Rio Uruguay às 8hs. Na rua nenhuma viva alma, ao menos consegui um banco e o toldo da pequena rodoviária. Continuava chovendo torrencialmente. Por alguns instantes desejei que o motorista permanecesse ali, assim me sentiria menos sozinha, mas ele tinha que fazer o caminho de volta a Santa Rosa. Fiquei sem mate, e derepente não mais que derepente fui invadida por uma solidão abismal. Durou apenas o tempo de começar escrever, pensei que me deitar no banco em frente a rodoviária seria mais degradante...Escrevi para o tempo da fronteira passar. Ás seis da manhã começaram a chegar os jovens que pegam ônibus para a escola. Lembrei-me dos velhos tempos em que meu pai me tirava todo dia da cama às 5 e meia da manhã para ir à escola. Sim, tinha que pegar dois ônibus até a cidade para fazer o segundo grau. Eita, quando me lembro deste tempo, do ônibus lotado, das estradas de chão, dos beijos roubados no fundo do ônibus, das brigas quando as meninas da 'cidade', como era bem bom...

Ainda antes das sete resolvo descer pelas ruas de Porto Mauá, não chovia mais. As ruas continuavam desertas, me fui até a aduana, na frente do Rio Uruguay e a cena de ver o rio acordando não sai dos meus poros, quanto menos da minha retina...as águas do Rio Paraná deixavam as águas do Uruguays maos sujas e resiste a se misturar no grande fluxo, andam juntas, entremeadas...andam juntas, até onde se pode 'in'-separadas.





Mas não demorou muito começou a chegar as 'gentes' da região. A fila de carros começa a se formar para cruzar a fronteira. Gosto deste murmurinho, meu corpo se agita é como se chegasse num lugar íntimo e fraternal. Um senhores muito bem humorados sentam perto de onde estava em frente a um boteco. Não demorou muito um deles puxa papo comigo. Em menos de 15 minutos ouvi tanta história de pescador, que se eu fosse mais entendida no assunto tinha saído correndo pescar dourados no Uruguay. Para terminar seguimos falando da Mega Sena e dos 38 mihlões acumulados, apostamos o que cada um faria com o dinheiro. Eu pensei que com esta grana, colocaria 8 milhões na poupança para garantir meu futuro, depois durante os próximos 30 anos da minha vida, faria uns 2 filmes por ano de meio milhão para contar as histórias que vejo, ouço e sinto de todas essas gentes...É, Seria um longo dia pela Argentina, já senti por ali que seria uma bela viagem pelos interiores da Argentina...que aos poucos vou lhes contando...Buen Viaje siempre...

1 comentários:

Edson said...

O seu blog carrega consigo uma imagem de enorme importância admiro como você consegue descrever suas viagens em um texto que mais parece o poema da serenidade de uma rua na penumbra da noite. Que passaria despercebido perante quase qualquer olho. estou maravilhado com a fineza que você descreve é como se nós estivéssemos lá ! Parabéns. è um blog lindo vou divulga-lo no meu blog!
Se puder dá uma passada por lá revolucaoblogueira.blogspot.com