Monday, October 03, 2011

Os 'prazeres' de se morar sozinha...




Abro a porta e ele me olha com olhos arregalados. Um sorriso zangado. Tem pêlos no peito e sobrancelhas grossas avermelhadas. A vantagem de tê-lo em casa é que toda vez que chego tarde, mesmo com todas as descrições de descontentamento, ele se cala e apenas me escuta, aguenta meus tapas, chutes, esbravejos e choros sem nenhuma reação a não ser ficar cambaleando de um lado para outro na sala. Pode parecer bobagem, mas está sendo uma grande novidade chegar todo dia em casa e ela estar assim intacta a me esperar. Ele ali intacto a me esperar. Coisa de quem nasceu em família grande: quando era pequena sempre dividi o quarto com minha avó, depois com as irmãs, na adolescência tive um tempo com quarto só para mim. Lá em casa era assim, o irmão do meio queria ter o quarto do mais velho e quando este ia embora de casa, era uma festa a nova posse dos quartos, parecia a passagem para a vida mais independente. Mas morar sozinha nunca tive a oportunidade.

Quando sai de casa para estudar, obviamente que não contei com tal regalia, casa de estudante era a única solução. O primeiro quarto na casa de estudante foi o quarto feminino do coletivão, eram apenas 66 meninas. Tudo bem! Aprendi a me adaptar facilmente, peguei a cama do lado da porta, sabia que ia ser sempre a última a ir durmir - insônia, horas de leitura ou ir até tarde na casa de amigos - sempre foi minha especialidade.

Depois veio os quartos de 2 pessoas, o apartamento de 6, às vezes 7, às vezes 8, às vezes inúmeras pessoas. O tão famoso 3119…que tinha um quadro com um lindo lago na entrada da sala. Dividir quarto na época de faculdade, por vezes era muito bom, mas na maioria das vezes para quem dividia comigo nem sempre foi uma boa escolha, sempre fui meio espaçosa mesmo - cheia de badulaques e sem falar nas situações constrangedores que coloquei os amigos, afinal alguém sempre chegava numa hora muito inoportuna, em que eu estava testando alguma nova posiçõo do kama sutra. Ok, não era por nada que todos sabiam meus `dotes` artisticos, aliás cada um ali tinha dons bem peluciares. Fui ter quarto só para mim denovo quando estava no mestrado, aí a casa do estudante já é de mais luxo. Quarto individual tem la suas diferenças, mas o apartamento ainda era dividido. Bueno, nunca tive problema de adaptação, em pouco tempo já me sinto em casa, tiro a roupa e fico com a porta do banheiro aberta. E confesso, odeio gente muito fresca…sei lá…acho que a vida não tem tanto mistério para ser levada tao a sério e com tanta imposição de dificuldades.

Mas, admito, caros leitores, a experiência dos últimos meses de morar sozinha em Porto Alegre, - depois de um bon tempo de instabilodade durmindo no sofá dos amigos, sem casa, sem quarto, sem rumo - tem sido uma das coisas mais fantásticas que já vivi. Tudo bem que minha inquietude não me permite ficar muito tempo parada no mesmo lugar, sem gente por perto. Mas, morar sozinha tem sido de uma dor e de um prazer tão conflitante e excitante que não tem como não escrever. Minha mãe sempre reclamou que andava pelada pela casa, até hoje me questiona: Fran e quando tu viaja fica pelada assim na casa dos outros? Ok, ok, minha dificuldade em tirar a roupa não é tão grande, mas mãe fora de casa até me comporto.


Convenhamos andar pelado pela casa não tem preço, é um prazer tão grande como masturbar-se em qualquer canto da casa sem ser julgado por ninguém, fazer sexo com outra pessoa então…(pena que ando nessa fase – meio to nem a pro meu tesão). Acordar, durmir, deitar no sofá, ler um livro, o filme que quiser, a comida que quiser fazer, comer, jogar fora, a música que decidir ouvir e receber quem eu bem entender…Acho que to virando mocinha agora, mãe, ando até pensando em comprar coisinhas para minha casa. Aliás, ando deixando de comprar coisinhas para mim, ou entao apenas viajar, para comprar um badulaque aqui, um platinha ali.

E de toda forma não estou tão sozinha, tenho umas plantinhas, apesar de não ter muito dom para cuidar de seres que dependam de mim. Até o cacto rosa do meu quarto consegui derrubar da janela há duas semanas. Ele foi salvo pela faxineira. E ontem fiz a maior descoberta de todos os tempos: não há nada mais incrível do que ter uma torradeira nova, mas melhor do que uma torradeira nova é ninguém ficar sabendo se você se entupir de torrada em todas as refeições do dia. Só teu boneção de plástico...Sim, eu tenho um bonecão, aquele que todo dia ao chegar em casa está me esperando. Tudo bem, peguei emprestado de um amigo por uma temporada, mas viver com alguém que não depende de mim, é mais uma vez incrível.

Estranha essa sensação, parece que me mantive casada há anos, talvez tenha me divorciado do mundo e agora tento me apaixonar pelo meu ser/ estar no mundo sozinha. Tem sido uma delícia…uma dor e uma delícia, volta e meia ligo para o Cris, ou para um amigo qualquer? Vem durmir comigo?? Pronto, dorme comigo uma noite, na outra já to bem feliz por continuar morando sozinha...(Delícias de quem descobre com 27 anos como é bom viver sozinha...coisas da vida...da boa vida)...

1 comentários:

O Segredo dos Escritores said...

bom dia!!!!!!!
poxa,show de bola seu blogue...muito bom...parabéns!
estou te seguindo...me siga também ?