Tuesday, September 20, 2011

Porto Alegre anda rápida sob seus 'lapachos'...


Este cheiro doce amargo da primavera. Talvez naqueles trinta minutos diários que passo dentro de um ônibus todo dia pelas ruas de Porto Alegre, tenha sido o momento que mais vivenciei esta cidade. Esta doce cidade repleta de 'Lapachos'. Eles são muitos, se espalham entre verdes, ruas, cinzas e marfins. No chão despertam o tom vivo de quem recentemente caiu, amaciam e enternecem o caminho tão rápido por estes últimos dias ou meses na capital. Tenho pensado muito nisso, aliás pensado muito, escrito e fotografado muito pouco. Divago naquela meia hora diária pela cor dos ipês roseados das avenidas e pela destreza de os vê-los caindo, florescendo, dando vida ao tão sem vida mais um dia que se foi.


Objetivamente, estes meses em Porto Alegre têm sido absurdamente loucos. Eles andam rápido demais, pode ser pelo fato de eu estar com bem mais que vinte anos, ou então, andam rápido demais por que nestes 27 anos as coisas para mim sempre andaram rápido demais. Profissionalmente sempre foi rápido, pontual e eficaz. Tudo sempre fluiu tão naturalmente a ponto de eu valorizar um 'superego' muitas vezes sufocante. No amor, as coisas andam rápido demais: amo e desamo como elas florescem, perfumam, depois simplesmente caem ao chão para amaciar estes passos largos e desbravios. Nestes meses em Porto Alegre queria reaprender a desamar...Mas tudo anda rápido demais por aqui, que o tempo de desamar também passa entre minhas mãos, ou talvez eu tenha decidido adiar para bem mais tarde esta fluidez do amor/desamor...


É época de aprender...a deixar-se despertar por uma humildade que eu nem mesmo sabia que tinha...Entrar no serviço público tem me dado grandes lições, dia após dia e mais dias...Me preocupo neste tempo todo demais com o outro, com o fazer direito, com os ajustes nos posicionamentos, nos sentimentos, na racional vontade de parar, pensar e então denovo andar. E aquele medo bem bom das escolhas, de pensar que talvez ali fora o tempo esteja passando ainda mais rápido e vai ser pouco tempo para vivenciar tantas coisas...E as ganas de viver é que me atormentam. Não tenho problema em dizer o quanto sou atormentada pelos fantasmas da inquietude, insatisfação crônica e dos desejos. E o quanto minha sensibilidade machuca meus poros, preenche rugas e me conduz a cheiros obsessivos. Mas, sou normal, muito normal...


Tenho aqueles dias de felicidade intensa, que saio do mesmo ônibus olho para a imensidão linda do Guaíba e sinto o quanto sou feliz e muito priveligiada pelas andanças que faço, pelas pessoas que conheço, pelas portas que sempre se abriram no meu caminho. Aprender e reaprender é uma arte, mas a maior arte é a humildade que tenho de estar o tempo todo com vontade de entender um processo novo, burocrático e especialmente muitas vezes não estando envolta pelas melhores pessoas do mundo. Mas sou uma pessoa de sorte...EStes meses em Porto Alegre também estou ciente do quanto vivi uma outra vida, a de um filme, de uma história, as dores e amores de alguém que talvez seja mais co-irmão que eu possa imaginar. Iguais, não, mas profundamente idealistas diante do mundo...Sofremos devagar, somos felizes bruscamente, mas é na estrada que nos encontramos.


Para piorar ou melhorar todos estes sintomas hoje fui assistir "Meia noite em Paris" ...hoje queria estar bebendo um vinho azul num beco escuro de Paris...Por que é tão difícil viver o agora? Ou estamos no passado na Belle epoque ou estamos nos outros lugares, no cheiro de outros ipês, na necessidade de viajar para fugirmos de nós mesmos...Mierda, acho que este filme não foi a melhor escolha do dia, potencializou toda esta dramaticidade...mas como é bom quando um filme faz isso com a gente...não...Sim, é muito bom ser despertado ainda mais...


Ou no fundo, eu só queria voltar a fotografar com a verdade que carrego dentro de mim, aliás, eu queria mesmo é me entregar para a vida...assim explodindo de vontade de criar...

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