Igual não disse palavra em todo caminho...
Chegou sorridente do outro lado da rua e me pergunta: Are you from?
- Yo vivo acá en Porto Alegre. Soy de Río Grande do Sul.

E seguimos hablando. Ele em inglês, eu em espanhol. Não tinha dúvida de que ele era americano. Lindos olhos claros o denunciavam. Ele também não teve dúvida que era estrangeira quando me abordou. Também começou um francês. Acreditou que eu era estrangeira pela minha feição certamente, mas muito mais pela máquina fotográfica em mãos em um domingo de manhã pelas ruas de Porto Alegre - domingo de dias das mães. Isso já me aconteceu várias vezes, e sempre foi motivo de bonitas aproximações. No nordeste especialmente poucas vezes fui brasileira, mas americana, francesa, até suíça...mas quando conhecem meu samba, não há dúvida da minha negritude...Hahaha.
Mas, depois de um breve diálogo descobrimos que éramos os dois brasileiros, unidos por uma linguagem quem sabe universal: a fotografia. João Batista, fotógrafo de Florianópolis. Lhe chamou a atenção que eu estava fazendo fotos do chão. Fotografa uma flor amarela caída na calçada. EStava buscando referências que lembrasse minha mãe. E talvez mais do que fotografia a maternidade seja a coisa mais universal e poética que nos unia. Me despedi do fotógrafo emocionada pela 'arte dos encontros' e como de fato é neles que consigo em pouco tempo, em poucas palavras e num portunhol bem enrolado deslindar boa parte de mim. Mas não tinha dúvida que a fotografia e a maternidade nos uniu naquele momento de encontro. O fotógrafo passava por Porto Alegre para resolver problemas familiares, e eu lhe agradeci silenciosamente por fazer parte do meu dia - das mães - por breve momento. Assim, me senti menos sozinha, se bem que quando se vive por meio de poesia da arte não há como amargar na solidão. Acredito, aliás, que 'o fazer' seja o refúgio da solidão dos artistas. Minha mãe, não tenho dúvida entenderia do que estou falando: ela canta, escreve versos e planta flores. Elas mais do que ninguém sabe brincar com sua solidão.

Mas, não tinha conseguido falar com minha mãe ainda. Ao menos já tinha encontrado com a mãe da Pati bem cedo para um chá da manhã. Chá com mel que lembrava minha mãe. Também queria a minha, por isso sai pela rua sozinha, sem grandes pretensões, fotografando suas cores e referências. Para mim, minha mãe lembra flor, não só pelo clichê do feminino, do perfume de mulher, bla bla bla, mas por que minha mãe planta flores. Mais do que isso minha mãe conversa com elas, para talvez apaziguar a falta dos filhos. Hoje é dia das mães, minha mãe está sozinha. E pior, o celular lá no interior de Charrua não está funcionando. Talvez ela esteja falando com suas flores. Achei um tanto injusto não conseguir falar com ela, mas ao mesmo tempo naquelas fotografias e naquelas cores sabia que estava em constante conexão com ela. Tanto que meia quadra depois das fotos minha mãe me ligou. Estava no alto do moro onde o celular funcionava. Ligou para receber Feliz dia das mães. Ela estava no meu lugar preferido no mundo, acho que na verdade o lugar que vai sempre ser meu refúgio, de um lado tem um mato com terra virgem onde nos escondíamos quando crianças e saíamos a caça de seres ocultos da mata. Do outro lado ao longe os moros e depois deles os horizontes por onde perpassava meus olhares e meus sonhos...aqueles que me levariam para longe...longe inclusive da minha mãe.
Falei pouco com ela ao telefone, lhe contei que fotografava em sua homenagem, ela do outro lado não conseguiu mais falar. Eu deste lado nunca fui muito boa em palavras ditas, prefiro as escritas, por isso limitei-me a um Feliz dia das mães, não consegui dizer-lhe: eu te amo! Nunca consigo, nem para ela, quase nunca para ninguém, apesar de tanta vontade que tenho de dizer para tantas pessoas. Talvez pela falta de coragem ao falar, que o amor vai se acumulando demais em mim, e certamente é por isso que eu amo demais e imensamente a vida e as pessoas...Penso que se eu conseguisse por alguns momentos falar todos os meus sentimentos, conseguiria aquietar minha alma e dar mais sentido para meus vazios. Mas não consigo, por isso fotografo e escrevo. Ando pela rua sozinha e passo horas a confabular tudo o que queria dizer, me sinto frágil nestes momentos, mas muito forte quando percebo que às vezes se fala demais e se ama de menos. Nunca confiei muito nas palavras ditas com facilidade, nos discursos inflamados e vigorosos que muitas vezes mascaram nossa essência, que é calada, porém fervilhante e verdadeira.
Lembrei-me, então, de ontem a noite, quando durante uma festa fui abordada por um interessante jovem. Ele era bonito, charmoso e bem sucedido, sabia como ninguém "galantear" uma mulher - pode ser que não uma mulher como eu - mas olhava com convicção nos olhos. Olhos de pegador, tudo bem. Sei lidar muito bem com eles. É sei lidar muito bem com os olhos, mas não com as palavras, fico sem palavras...minhas mãos se movimentam demais sem saber onde parar. Penso que se tivesse uma câmera me esconderia atrás dela e então seria mais verdadeira nas minhas atitudes, no jogo de sedução que acontecia. Não estava bêbada o suficiente, por certo, mas quando bêbada falo demais e normalmente choro. Aí acontece o contrário, mas é difícil encontrar uma exata medida entre este falar demais e o não falar. Resumindo: por falta de jeito e de não saber como falar - acabei falando bobagem, acho que fui meio grosseira, praticamente mandei o jovem, - bonito, charmoso e bem sucedido, - embora . Ah, tudo bem, ele não era "meu número" e meu lado heterosexual do dia estava satisfeito. Olhei para os amigos que estavam comigo e eles perguntam com veemência: O que você falou Fran? Droga, eu não sei falar. Deveria ter saído com minha câmera...Ou deveria ter apenas ficado no olhar. Deve ser por isso que nunca fui muito 'pegadora' na noite, normalmente minhas paixões começaram durante os dias, na convivência. Mas essas são sempre as mais perigosas, estou preferindo voltar para a noite, falar menos, olhar e dançar muito mais. Dançar sempre funciona.
Mas, e minha mãe em meio a isso tudo? Essa história toda, só para dizer que talvez minha mãe seja a única pessoa que me entende como ninguém em plenitude. Sabe que falo pouco, escrevo muito mais, por isso ela sempre insiste nos meus textos, gosta de chorar com minha poesia. Entende minhas inquietações, por isso não me questiona, aliás deixou de questionar há muito tempo, só reclama da falta de grana. Tudo bem, isso um dia também vai mudar. Se os parentes perguntam: e a Fran não esta namorando?. Minha mãe responde com maior orgulho: 'namorando não, sozinha nunca'. Puta que o pariu como ela me entende e para isso não preciso nem lhe contar das minhas paixões fugidias, dos meus amores possíveis e impossíveis ela sabe de tudo sem saber...às vezes lança alguns comentários maliciosos para cima de mim, eu olho para ela, não digo nada. Ela entende, sem ter dúvidas. Da última vez que nos vimos, me disse: queria ter sido igual a você, a ter tantos amigos, a viajar. Não lhe falei nada, não falamos nada, já estavámos quase a chorar. Na hora de ir embora é sempre a mesma história, acho que mesmo depois de 50 anos (tomara que ela viva todos estes ainda) vai ser a mesma história: nos abraçamos, falamos poucos, choramos e nos amamos muitos. Minha mãe, meu pai, minha avó, meus quatro irmãos. Mas é ela, é ela que em meio a tudo isso, que é pilar: força, alegria, vitalidade, sexualidade, paixão, sentido...e tantas coisas mais que não cabem numa fotografia...


é ela...
cor amarela
flores caídas
nas ruas deveras
por vezes esquecida...
é ela...
boneca de pano
canção de ninar
vigor nos meus sonhos
razão do cantar...
é ela
flor amarela
razão do meu andar
cor de aquarela
a essência do amar!!!
é ela
e somente ela
que entende o meu olhar!!!
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