Há dias fazia planos de fotografar a árvore atrás do prédio da Música na faculdade. O amarelo de suas flores eram deslumbrantes, teriam combinado perfeitamente com o vestido azul da menina que passeava pelo campus ontem à tarde. Hoje, no final da manhã, depois de resolver os tradicionais problemas burocráticos da minha defesa no mestrado, resolvi fazer uns cliques, sem nenhuma grande pretensão. Apenas aquela velha história de treinar o olhar. Ainda mais agora que com máquina nova estou tendo que "reaprender" a fotografar. Se bem que eu sempre achei uma grande bobagem, nada convincente por sinal, essa história de só pensar em equipamento. Talvez por que tinha que me adaptar às minhas condições. Mas o fato é que a intimidade com a máquina aumenta dia após dia e depois de anos fica ainda mais difícil acostumar com outra máquina na mão e no olhar. O olhar, no entanto, é o mesmo, mas parece que ainda sinto o peso da minha Nikon na mão é muito louco isso, mas é real.
Era quase meio-dia, um calor insuportável pelo campus, parei para fotografar a árvore amarela e para minha surpresa algum aluno da música tocava percussão na sala de fundos para onde ela estava. Deitei debaixo dela por alguns segundos e me deixei tocar por aquele música leve e pelo amarelo daquelas flores. Por alguns instantes meu mundo ficou todo amarelo. E eu gostava de me sentir assim. Testei a máquina o quanto pude, pondo em prática as aulas que tive com um amigo fotógrafo antigo. O mesmo que ontem à noite me fizeste durmir muito bem. Me chamou no msn: "Linda, parabéns pelas fotos, olhar único. Não foge" - mas não tem jeito, caro amigo, eu juro amor eterno e vou embora com o circo. Acho que foi mais ou menos assim com minha máquina fotográfica, jurei amor eterno, mas como em quase tudo, fugi com o circo.
Voltando ao "mundo real", depois da árvore, da música, um pouco de água de uma torneira velha abandonada em um recanto da universidade. E está tudo tão vazio por aqui. Depois de um mundo amarelo, um mundo nostálgico com pouca água de um lado, com muita água de outro. Acho que essa é a foto de um dia, em que a falta de água aqui no Sul assusta cada vez mais, o exagero de água no sudeste traz tanta tragédia. Nessas horas me sinto bem em não ter TV em casa e fujo de ver o sofrimento alheio e me detenho em apenas poetizar em baixo de uma árvore amarela, do lado de uma torneira de água cristalina.
A partir de hoje todo os dias teremos fotos novas aqui, é o desafio que estou me colocando. Afinal está tudo tão parado por aqui e está na hora de encher o olhar de mais verdes lembranças.
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