Nada de fotografias, mas muito de imagens!!
- Hoje não quero fotografias.
- Eu sei Dona Eloá, hoje a senhora está tão triste.
- Ah, é verdade, esqueci que você já consegue identificar minha tristeza. Já me conhece, né, gringa.
Sim, desde o primeiro dia que cheguei em Uruguaiana fui visitar minha "informante" Dona Eloá, uma senhora árabe que trabalha na Baixada - nome dado ao camelódromo da cidade. Percebi de imediato que a mulher não estava bem, seu olhar parado, de uma tristeza profunda acabou com minha euforia de voltar a fronteira. Foi de cortar o coração, suas palavras soavam profundas, pesadas. E eu sabia que se a fotografasse nesses dias este pesar, toda esta tristeza estaria nas minhas fotos, aliás sua tristeza abalou meu olhar. Fotografei bem menos do que deveria Para mim e creio que para a maioria dos antropólogos a melhor sensação é o reencontro com nossos "informantes" (não gosto deste termo, parece tão informal). Minha relação com eles é muito mais do que esta "informalidade", se torna uma cumplicidade que fica latente no tempo, fica marcada em cada uma das minhas miradas sobre suas vidas e a deles sobre a minha. É o tal encontro sensível, palpável e carnal que Grotowski falava, que não se dá somente no palco, mas em cada um de nossos dias.
Do lado de tantas bonecas na sua banca no comércio, Eloá tinha dois quadros em destaque, de uma reza em árabe e de uma foto da "Terra Santa", pedi para fotografar ao menos os quadros.
- Que bobagem menina, tens que vir almoçar comigo lá em casa, quando eu estiver bem. Lá sim, de tanto quadro e fotos parece a Terra. Mas não adianta querer vir comprar meus quadros por que eu não vendo por nada nesse mundo. Que saudades daquela terra - conta-me Eloá.
Imagino sua saudade, depois de 40 anos sem ver a mãe e os irmãos. Ela me conta também, que no domingo falou por tefefone com a família que mora na Faixa de Gaza, era natal por lá, dia de grande festa. Da caminhada à Meca. Lhe pergunto se ela tem fotos da mãe. Ela me diz que tem poucas fotos, quanto menos dos irmãos. Lhe pergunto então, como é a imagem que ela tem da sua mãe, da família, do lugar onde nasceu?
- Menina, existe um lugar na minha memória de criança que nunca se apagou, eu vejo minha mãe, minha avó. Tenho aquela imagem que não sei se é a mesma da realidade, mas eu me lembro das ruas, de como andar por lá. Há coisas na vida que não se esquece, e eu só tinha 8 anos quando vim embora. Ta tudo aqui na minha cabeça as imagens, nem precisa de foto.
Essa declaração sempre mexe comigo, é muito dual o sentimento que tenho em relação a fotografia no trabalho de campo. Acredito muito na sensibilidade, na leitura que tento propor com minhas imagens: a alegria, a tristeza, os vazios, as satisfações que tento colocar no contexto na qual fotografo. Mas em que medida essas imagens não estão somente e ressalto SOMENTE nas nossas cabeças? Vou escrever sobre isso...creio que redefini a linha do meu trabalho teórico, e vou ter trabalho no próximo mês, heim, por que é nada fácil em palavras traduzir minhas confusões teóricas e empíricas....é tal tensão solitária de Augé, que eu estava pensando quer tensão mais solitária do que o trabalho de um pesquisador? Ou seja, poderíamos pensar o trabalho de pesquisa como um não-lugar? É isso, é isso...
Hoje sem fotos, por que está tudo na minha cabeça...
1 comentários:
Gostei muito daqui!
Da uma passada no meu blog para conhecer, se não gosta, não ficarei chateada..rsrsrs beijão!
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