Thursday, November 18, 2010

Minha máquina não...podem ficar comigo, mas não com ela...

- Apreender minha máquina? (falei em voz alta)
- Vos estas louco? (pensei calada)
- Si, puede apreender mi máquina, pero yo voy ficar acá también, no vivo sin mi máquina.
- Moça, como podes estar viajando sem a nota fiscal de sua máquina?
- Mas eu não estou viajando, só fui até ali em Libres comprar um dulce de leche e um azeite de oliva. (O policial aduaneiro deu risada, e eu também)
- Como não está viajando? Atravessou uma fronteira, estás em outro país.



Mierda, yo sabia que estava viajando, mas queria me mostrar "inocente". Eu não tenho a nota fiscal da minha máquina fotográfica, afinal ela já veio "contrabandiada" dos EUA. E como gosto de contrabando. Hoje de manhã fui reencontrar meus amigos chibeiros. Adoro passar alguns dias de "Mariana Chibeira" (mas não me interpretem mal). Fui para a parada de ônibus de Uruguaiana e sentei-me do lado dos companheiros chibeiros que com muita pressa amarravam os cadarços dos tênis ao seu redor e os distribuíam em sacolas. Estava com um pressentimento de que era muita mercadoria. Fiquei por ali, quieta de canto, contemplando a intensa movimentação. Cuias e tênis divididos em muitas sacolas. E eu pensava na tensão solitária que diz Augé ao se referir aos não-lugares.

Quando o ônibus chegou adentramos todos. Decidida resolvi sentar no último banco do ônibus, os mais altos, disputados pelos hermanos chibeiros em todas as outras viagens que fiz. Percebi de imediato que minha atitude havia os incomodado, mas eu estava disposta a ajudar. No entanto, eram tantos tênis a serem distribuídos que eles nem prestaram muita atenção em mim. Minha tensão aumentava estavávamos quase do outro lado da ponte e as mercadorias ainda não estavam todas ajustadas em suas devidas sacolas. Paramos na aduana e a tensão se generalizou. Entrou dois policiais aduaneiros da Argentina. Um deles com óculos de sol e uma cara de mau. E estava mau mesmo, mandou todos os chibeiros com sacolas descer e não hesitou em abrir sacolas e revirar a mercadoria. Me deixou quieta.

No entanto, uma das chibeiras antes de descer me pergunta se pode deixar uma sacola de compras comigo, iríamos nos encontrar mais tarde. Ok, eu aceitei, sempre aceito. Mas não é que o amigo da policia voltou para fazer revisão. É a coisa anda muito "tensa" por essas bandas da fronteira. De imediato descobriu a sacola no canto do ônibus no lado dos meus pés. Pergunta se era minha...Hehehe e eu com essa "cara" de chibeira resolvi dizer que sim, ele só não deu risada por que tinha que manter seu semblante de mau. Muito pior que Capitão Nascimento, rsrsrsr. Abriu a sacola e me pediu onde ia levar tantos tênis. Lhe disse que ao centro da cidade. Então ele me disse: yo lo sei que no és de vos. Vos é brasileña, no és chibeira, és de los otros, no?? Não teve jeito, enrolei um portunhol e ele levou "minha" sacola. Por que em bons momentos hablamos muy bien un espanhol. Em malos momentos como esto, enrolamos muy bien um portunhol que nem los hermanos compreendem.



Ok. Liberada me fui ao Buraco Fundo, em Libres. O ônibus ficou vazio, meia dúzia de pessoas restaram. Era triste ver aquelas pessoas todas sendo revistadas e perdendo suas mercadorias. Mas, tudo bem não vou fazer julgamentos, não é este meu papel. Cheguei ao buraco fundo com a expectativa de encontrar minhas amigas chibeiras brasileiras. No entanto, nenhuma encontrei por ali. Como assim, donde andam las hermanas brasileñas?? De fato a coisa anda estranha por acá nesta frontera (como ninguém me visa que esta fronteira foi matéria do Fantástico, óbvio que isso tinha explicação). Pior foi voltar de ônibus. Acreditem ônibus vazio, senti saudades dos velhos tempos de tensão quando Dona Marli e suas parceiras me pediam para ajudar a carregar mercadorias.

No entanto, o policial federal do Brasil entrou no ônibus. Pediu para mim abrir a mochila, lhe mostrei meu dulce de leche e meu azeite de oliva. E inevitavelmente minha máquina fotográfica. Mierda, senti que estava ferrada, a única coisa que me salvaria era que o moço tinha uma cara de gente boa, de estar em paz, e eu sabia que tinha que me apegar a isso e mostrar o quanto eu também estava muito bem intencionada. E então decorre o diálogo do início do texto:



- Mas tenho minha máquina há dois anos.
- Mas como andas com ela sem nota fiscal, a orientação que temos é apreendê-la.
- Mas moço, quer que eu te mostre as fotos?? (eu tinha fotos de mulher pelada, ele poderia se animar).
- Sim, me mostra as fotos.. (droga as mais recentes eram dos amigos chibeiros). No entanto, lhe mostrei algumas fotos.
- Tu vai ter que descer moça, tenho que ficar com tua máquina.
- Ok, fica com ela e comigo, não consigo viver sem ela.
- Sim, óbvio que você vai ter que ficar.
- Mas, eu só ia ali do outro lado. rsrsrs

Resolvi partir para apelação, fiz uma cara de inocente, com uma mistura de aflição, de choro, com uma ponta de sensualidade em meio a tudo isso. Ele me olhou bem nos olhos, deu um sorrisinho e uma baita advertência. Quase me apaixonei, só não me apaixonei por que lembrei que ele tinha acabado de fuder com meu trabalho de campo (OU NÃO). Ele saiu do ônibus, e eu ainda resolvi tirar uma foto de sua saída, só de raiva ou de agradecimento, não sei. Hehehe.

Consegui seguir viagem. Putz essa foi por pouco, aliás essa for por muito pouco, tenho certeza que se na viagem de ida o argentino tivesse revistado minha mochila estava até agora na aduana. As coisas andam tensas por aqui. Também que gente que precisa fazer contrabando de remédio. Droga....Tudo bem, fiz minhas fotos. DE tarde resolvi procurar uma massagista para aliviar a tensão. Bah e descobri uma mulher com mãos incríveis. To nova...Amanhã é dia de "Terra Santa" e do lugar antropológico.

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