Monday, September 20, 2010

Um texto escrito na madrugada de ontem...atualizado na madrugada de hoje...

Que tons nesta tarde...Sou filha da terra...em direção ao "mar"...

Resolvi remexer no passado, como quem procura em escombros pedaços de memórias, fragmentos poéticos de outros tempos. E percebi que o tom das minhas fotografias, feitas nesta tarde, era tão vivo quanto a vigorante memória dessa gente. Acreditava que eles eram apenas “mortos vivos” no meio do nada, no entanto, ignorava (quem sabe como processo de “auto”defesa) as vidas metafóricas que enchem o olhar de tonalidades, os ouvidos de intensidades e o olfato da minha infância. No meio da tarde senti uma imensa nostalgia...confundida por uma desperta alegria de voltar a remexer neste passado...NA MINHA LEMBRANÇA...

Agora são quase uma hora da manhã, estou sem sono. Mesmo ontem a noite ter sido longa em uma festa de família (e em família “pé de valsa”, quem torce o pé e não melhora em duas semanas é deserdado...meus pés estão que é um “leque”, simbora pro salão), permaneço sem conseguir durmir, diria que eufórica...em processo latente de “criação”. Sentada no sofá da casa velha dos meus pais, ouço lá fora apenas os quero-quero, um vento que sopra e faz cair sobre o telhado de zinco as folhas do pé de “guavejú”. De resto tudo é silêncio – durante as noites/ durantes longos dias. Aliás, que dias bem lindos que faz nestes campos verdes de primavera..as plantas estão brotando, tudo está quase em flor, o pólen que lembra o cheiro de cada espécie. Um problema para quem tem renite, mas poesia para quem gosta de voltar. Escrevo freneticamente, pois é tempo de pesquisa para um novo trabalho documental e meu dia foi remexer em um passado intocado - ao menos por mim. E quanto de mim fiquei sabendo nesse remexer, quanto desses campos e das rugas nos rostos deles foram se desnudando na tarde ainda breve da primavera.




Mas como diria MACDOUGALL (2009) em filmes de ficção, bem como em filmes de não-ficção, usamos materiais “encontrados” nesse mundo. Nós os modelamos em redes de significações, mas dentro dessas redes somos pegos por relances de existência mais inesperados e poderosos do que qualquer coisa que pudéssemos criar”. E essa fase me remete essencialmente ao momento de pesquisa de um documentário, que é o que vivi neste final de semana. Momento que encontro esses materiais existenciais, que até tento dar forma e significado, mas que tem existência própria para além de qualquer criação.

Não posso deixar de comentar sobre a fase feliz que estou vivendo na minha vida pessoal e profissional, eu diria que acabo de passar por um importante processo liminar e assumo agora as escolhas feitas na minha vida, com um mínimo de maturidade diante de um processo que se acaba e de tantos outros que iniciam. Sexta-feira, dia 24, lanço um documentário com a minha orientadora Luciana Hartmann. Já realizei vários trabalhos com cinema, até direção em outros doc’s, mas confesso que este é o primeiro que demarca uma passagem na minha vida, que desperta para outras possibilidades, que me trouxe a segurança de reconhecer o quede fato quero, que faz entender tantos aprendizados que se adquire em processos: conturbados, difíceis, no entanto, sempre envoltos por paixão e essencialmente por brilho no olhar. E ontem um amigo me disse: essa euforia é viciante. De fato o é. E eu não acredito em nada que não tenha brilho no olhar, que não desperte em mim a curiosidade de “encontrar”, pois acredito no “encontro” sensível, carnal e poético. Sou feita de alma e só acredito em pessoas assim. E tenho tido muita sorte de encontrá-las.



E vou parando por aqui, por que tudo acontece no seu devido tempo, e esta pesquisa que realizei hoje, vai ainda render boas narrativas para tantos espectadores...por enquanto trato dos aspectos corporais das imagens e do seu fazer...e a luz que brilhou no “espectro” da minha máquina fotográfica me fizeram perceber, inclusive, mais consistência na minha maneira de olhar para o mundo....

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