Que tons nesta tarde...Sou filha da terra...em direção ao "mar"...
Resolvi remexer no passado, como quem procura em escombros pedaços de memórias, fragmentos poéticos de outros tempos. E percebi que o tom das minhas fotografias, feitas nesta tarde, era tão vivo quanto a vigorante memória dessa gente. Acreditava que eles eram apenas “mortos vivos” no meio do nada, no entanto, ignorava (quem sabe como processo de “auto”defesa) as vidas metafóricas que enchem o olhar de tonalidades, os ouvidos de intensidades e o olfato da minha infância. No meio da tarde senti uma imensa nostalgia...confundida por uma desperta alegria de voltar a remexer neste passado...NA MINHA LEMBRANÇA...
Agora são quase uma hora da manhã, estou sem sono. Mesmo ontem a noite ter sido longa em uma festa de família (e em família “pé de valsa”, quem torce o pé e não melhora em duas semanas é deserdado...meus pés estão que é um “leque”, simbora pro salão), permaneço sem conseguir durmir, diria que eufórica...em processo latente de “criação”. Sentada no sofá da casa velha dos meus pais, ouço lá fora apenas os quero-quero, um vento que sopra e faz cair sobre o telhado de zinco as folhas do pé de “guavejú”. De resto tudo é silêncio – durante as noites/ durantes longos dias. Aliás, que dias bem lindos que faz nestes campos verdes de primavera..as plantas estão brotando, tudo está quase em flor, o pólen que lembra o cheiro de cada espécie. Um problema para quem tem renite, mas poesia para quem gosta de voltar. Escrevo freneticamente, pois é tempo de pesquisa para um novo trabalho documental e meu dia foi remexer em um passado intocado - ao menos por mim. E quanto de mim fiquei sabendo nesse remexer, quanto desses campos e das rugas nos rostos deles foram se desnudando na tarde ainda breve da primavera.
Mas como diria MACDOUGALL (2009) “em filmes de ficção, bem como em filmes de não-ficção, usamos materiais “encontrados” nesse mundo. Nós os modelamos em redes de significações, mas dentro dessas redes somos pegos por relances de existência mais inesperados e poderosos do que qualquer coisa que pudéssemos criar”. E essa fase me remete essencialmente ao momento de pesquisa de um documentário, que é o que vivi neste final de semana. Momento que encontro esses materiais existenciais, que até tento dar forma e significado, mas que tem existência própria para além de qualquer criação.
Não posso deixar de comentar sobre a fase feliz que estou vivendo na minha vida pessoal e profissional, eu diria que acabo de passar por um importante processo liminar e assumo agora as escolhas feitas na minha vida, com um mínimo de maturidade diante de um processo que se acaba e de tantos outros que iniciam. Sexta-feira, dia 24, lanço um documentário com a minha orientadora Luciana Hartmann. Já realizei vários trabalhos com cinema, até direção em outros doc’s, mas confesso que este é o primeiro que demarca uma passagem na minha vida, que desperta para outras possibilidades, que me trouxe a segurança de reconhecer o quede fato quero, que faz entender tantos aprendizados que se adquire em processos: conturbados, difíceis, no entanto, sempre envoltos por paixão e essencialmente por brilho no olhar. E ontem um amigo me disse: essa euforia é viciante. De fato o é. E eu não acredito em nada que não tenha brilho no olhar, que não desperte em mim a curiosidade de “encontrar”, pois acredito no “encontro” sensível, carnal e poético. Sou feita de alma e só acredito em pessoas assim. E tenho tido muita sorte de encontrá-las.
E vou parando por aqui, por que tudo acontece no seu devido tempo, e esta pesquisa que realizei hoje, vai ainda render boas narrativas para tantos espectadores...por enquanto trato dos aspectos corporais das imagens e do seu fazer...e a luz que brilhou no “espectro” da minha máquina fotográfica me fizeram perceber, inclusive, mais consistência na minha maneira de olhar para o mundo....
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