Então é natal...O pinheiro - o "bom velhinho" - e os erros...
Este ano, confesso, não estou ainda impregnada pelo espírito nataliano. Acho que isso se deve a idade, os compromissos, a vontade de não se afastar de quem se ama, indo ao encontro de quem se ama ainda mais. Mas, nunca me esqueço da minha infância, e do significado do então natal.
Primeiro que o ritual começava um bom tempo antes, nos dias que antecediam a montagem do pinheirinho. Morando lá fora, pinheiro de natal, sempre é o mais natural possível: se corta um pinheiro novo, com galhos bem verdes e o coloca num latão desses grandes - que provavelmente um dia foi de tinta, ou de óleo - se recolhe musgo nos rios, para enfeitar o latão velho e ainda se prepara a "cama" do menino Jesus. Não havia um lugar específico para os presentes, por que os presentes sempre foram muito pequenos, muitos simples: um pacote de bala, uma boneca das mais baratas, enfim, o que estava de acordo com a situação econômica do pai e da mãe.
Os enfeites do pinheirinho também eram feitos artesanalmente. Aliás, cresci em meio a ótimas estratégias artesanais de se vencer dificuldades, pena que eu tenha me dado conta deles bem mais tarde, quando já não estava mais lá. Pegávamos papéis de balas, de bombom e enrolávamos em pedaços de madeira reconstituindo esses doces. Eram belos enfeites, que "alimentavam" nossos sonhos mais "puros".

Mas o auge das festividades natalinas, era a noite do dia 24, por que, então, haveria o encontro na comunidade, a visita do papai-noel, a missa em homenagem ao nascimento do "menino". E vocês não imaginam o quanto este "ir à comunidade" numa noite de natal - por exemplo - é importante para quem vive no interior, quando são poucos os momentos de convivência em meio ao tumulto de outras crianças, outras pessoas.
Ir à comunidade na noite de natal era fazer parte do "teatro" que minha mãe organizava com as crianças da catequese. Era ganhar um pacote de doces, que normalmente a prefeitura da cidade envia para as igrejas. Era correr com outras crianças durante a noite, ao redor da igreja, no campo de futebol, brincando de esconde-esconde. Quando adolescente dava até para arriscar uns beijinhos às escondidas com algum colega de aula. Mas, quando adolescente já não se acreditava mais no papai-noel, já se sabia quem se escondia por detrás da fantasia (velha, velha, aos trapos literalmente, que minha mãe guarda lá por casa).
E deixar de acreditar no papai-noel me doeu muito. Por que sempre fomos alimentados pela sua presença, pelos sonhos que um dia possivelmente ele podia realizar, ao adentrar lá em casa de madrugada. Nunca me esqueço o quanto durmia ansiosa esperando os passos dele no assoalho de madeira. E eu sempre ouvia os barulhos, mesmo no outro dia não tendo presente, mesmo sabendo quando adolescente que ele nunca esteve ali.
Neste sentido, às vezes eu ainda sou aquela criança impregnada de sonhos, que ouço passos, que corro ao redor da igreja com os coleguinhas, que beija escondido os namoradinhos, que acredita em papai-noel. Por vezes, as agruras de vida fazem com que me esqueça dessas pequenas proezas e encantamentos que fizeram parte da minha infância, então ignoro o papai-noel, os sonhos de criança, e erro. E erro dói tanto, quando descobrir que o "bom velhinho" não existe mais.
Bom, me antecipo ao falar de natal já neste momento, por que provavelmente nos próximos dias estarei offline, no Natal dando uma circulada em Bento Gonçalves, Caxias, no ano-novo completamente offline em Charrua - perto de um pinheirinho de natal bem familiar, indo à comunidade na noite da virad. Peço ao papai-noel mais serenidade em 2010, mais humanidade, e que os infelizes experimentem um dia o gosto simples da felicidade ao imaginar os passos do papai-noel na madrugada silenciosa, num assoalho de madeira.
Realmente, há gostos, cheiros, sensações, passos que não se esquece. E os erros espero que cicatrizem logo, e que me façam ouvir denovo os passos dele no assoalho, as mãos dele ao abrir a porta, a cheiro ao adentrar na sala, o gosto ao beijar a boca!!!!
UM ABENÇOADA NATAL À TODOS!! e 2010, COM MUITA LUZ...isso basta para fazermos ótimos cliques, para irmos além do nossos horizontes, para vermos melhor as coisas, as pessoas, os traços e os embaraços....Eu ainda acredito na humanidade....
