Thursday, November 26, 2009

Falando de imersão - paixão - pelas, nas fronteiras...


Nos últimos dias tenho tentando de todas as formas concentrar esforços para entender o por que da minha paixão por fronteiras. Afinal há 4 anos tenho me dedicado a concentrar meu "bacground cultural" (Bourdieu) no sentido de conhecer as fronterias, suas dinâmicas, com o intuito de encontrar e me encontrar com os sujeitos dessas regiões, suas histórias de vida, que acabam refletindo na própria realidade das configurações sociais dessas regiões. Dizem os antropólogos que não é a gente que encontra nosso objeto de estudo, mas sim, ele que nos encontra. Não que seja primordial encontrar o sentido para todas nossas escolhas, mas eu diante de minhas inquietações preciso entender.

Comigo tudo começou quanto estive na Tríplice fronteira entre Brasil - Colômbia e Peru em 2006. Mas depois de quatro anos, e impregnada cada vez mais pelo desejo de atravessar "essas fronteiras" e tantas ainda, me pergunto cada vez mais, o sentido da fronteira na minha vida. Como nasci numa pequena cidade do interior, longe da realidade de uma região de fronteira, eu deveria estudar "rituais festivos no interior", a construção de identidade os imigrantes italianos, poderia até ser os índios Kaingangues, já que em Charrua tem uma comunidade, bem forte por sinal. Não, mas diante de tantas possibilidades de escolha dentro do meu "backgound cultural", das minhas vivências, eu escolhi a fronteira, aliás, ela me escolheu: _A fronteira vai te falar o por que_comenta a colega Daiane, ontem a noite entre minhas "crises inquietantes".


E eu sou inquieta. As fronteiras são inquietas. Nelas existem fluxos, o "vai-e-vem" cotidiano, a troca de experiência, o apimentando pancho, os sotaques, o imaginário coletivo e lúdico que me invade. Então, penso que o motivo pela minha escolha poderia estar no fato de que gosto de viajar, gosto de cruzar esses limites que a princípio e de uma maneira grosseira, sem rodeios teóricos, corresponde as fronteiras territorias, mas bem sabemos que o simbólico por traz delas é muito maior. Ou ao menos minhas interpretações simbólicas podem ir muito além.

Eu sou instável. As fronteiras são instáveis. Os processos burocráticos de um lado e de outro, possibitam nuances peculiares a esses espaços. Então, penso que o motivo da minha escolha esteja por que gosto do desafio de entender esses meandros nada "estáveis" das dinâmicas do espaço territorial, muito mais se pensar de forma "simbólica". Ou quem sabe, minha escolha esteja apenas centrada no fato de que gosto das "gentes" de fronteiras, dos meus possíveis informantes, das pessoas que estão impregnadas de vivências híbridas, que constróem maneiras de se reconhecer enquanto parte deste espaço, o espaço que ao mesmo tempo é de tanta gente.

Eu gosto disso, dessas inquietações....eu gosto da "gente" - do "sujeito " - dos "sujeitos".

Sunday, November 22, 2009

Dada a largada a temporada de espetáculos



As crianças e pessoas que partem do senso comun o chamam de palhaço. Aqueles mais acadêmicos, ou portadores da linguagem teatral o chamam de clown. O fato é que o clown, como deve ser devidamente chamado tem muitas proximidades com nosso velho conhecido palhaço, a começar pelo nariz vermelho. Mas, estes personagens são capazes de suscitar no público, em nós os sentimentos mais humanos, verdadeiros: o riso sem compromisso, permeado pelo que há de mais inocente. O sofrimento singelo permeado pelo há que mais humano e almático.

Quando o palco é a rua então, se têm um "prato cheio" para o tal "jogo". Pois se está frente as intempéries mais inesperadas, sejam elas climáticas, e aí tem que se jogar com a chuva, sejam elas humanas e simbólicas: o passante que atravessa o espaço do espetáculo sem se importar, o fotógrafo que anda de um lado para outro, o sino da catedral que não vai deixar de tocar ao meio-dia só por que está havendo um espetáculo na praça. O ritmo da capoeira que começa a se formar. A abertura das pessoas para jogar, ou não.


E por fim o mais banal cotidiano é transformado em lúdico, em poética, que encanta a criança que o identifica como palhaço, o adulto que numa manhã de sábado apressada se surpreende diante da singela "brincadeira", o fotógrafo que tenta reproduzir no discurso imagético sentimentos.
E assim o "clown-palhaço" constrói seu palco, independente do espaço.

Bom, se você ficou com vontade de assitir, amanhã à noite, segunda, dia 23/11 no Teatro Caixa Preta mais um pouco do espetáculo LA PERSEGUIDA, com o palhaço Rabito: com direção de Gabriela Amado e atuação de Daniel Lucas, às 20h30min. Entrada Franca!!!!!

Friday, November 20, 2009

"Bóia de panela, cama de pelego e caña de guampa"


Sentado na soleira do seu "boteco", o "último gaúcho valente da fronteira" parece ter envelhecido bem mais do que os dois anos que ficamos sem nos ver. No entanto, a barba branca de quem já tem no lombo 70 anos de idade, é despercebida quando se começa uma conversa cheia de vivacidade e de histórias. Acostumado a cuidar do Gaúcho Pampa, que tem"apenas" 109 anos, Gaúcho Barreto, prepara o almoço para a indiada da redondeza. Junto com sua morena, com quem é casado há 39 anos. Opa, casado não, ajuntado já 39, casaram mesmo em 1993:
_ Quem disse que os velhos não casam, e que os brutos não amam_afirma Barreto, entre gestos espalhafatosos ao narrar suas peripécias.


Gaúcho Barreto, é um lendário contrabandista desta fronteira, hoje, no entanto se dedica a fazer bóia no seu pacato bar, em frente a Praça Artiga, e a cavalgar, junto com um "bando de louco" que de um lado a outro deste Rio Grande levam adiante as tradições do tal "gauchismo", desse bem de raiz como ele mesmo afirma. Bom, o por que dele ser um dos meus informantes, já que faz parte de tantos trabalhos acadêmicos, vocês verão mais adiante quando defender minha dissertação, por enquanto, apenas uma pitada do "gostinho" da massa uruguaia, com o feijão brasileiro, entre as broncas do Gaúcho Pampa com o Gaúcho Barreto numa mesa de madeira, aqui nesses confins....

Almocei com eles, enquanto chove aqui no "meu campo", enquanto chove e muito nesta fronteira. Hoje me voy embora, foram poucos dias, de bons reencontros, de muitas perspectivas, poucas fotos, mas como sempre grandes, intensas e instigantes histórias.



A bóia de panela me deu saudade de casa. A cama de pelego está ocupado por Gaúcho pampa que resmungando de um lado para outro, já sofre com o peso dos 109 anos, e a caña de guampa combinamos de tomar logo mais, quando me venho para a fronteira para cavalgar, durmir numa estância e ouvir mais histórias.

Mas é hora de voltar para Santa Maria, fechar as asas por mais uns dias, mas já com aquela saudade desse "povo de fronteira" que dá sentido para muitas coisas na minha vida!!!

Gracias hermanos periodistas, gracias hermanos, más hermanos que muchos hermanos!!!

Thursday, November 19, 2009

Nuestros hermanos estan en el mundial!!! Y yo estaba aquí!!!


Sentamos na mesa de canto na confeitaria City, na Avenida Sarandi em Rivera. Pouco tempo foi suficiente para me dar conta de que mais uma vez a escolha foi acertada. Néstor Garcia (mais conhecido como Chumbo), é um jornalista formado, com toda competência, pela vida. Sem diploma, não teme em dizer que é economista. Mas, ele é jornalista, muito mais do que muitos jornalistas por aí. Nem diploma neste caso justificaria.

Chumbo que já foi preso pela ditadura militar do Uruguai, sabe dessa fronteira mais do que ninguém, ao menos se interessa por entender as nuances dessa relação, que são pacíficas, sim senhor, mas que escondem certos processos burocráticos bem mascarados em meio a essa "integração amistosa".

Lá dentro, a seleção do Uruguai empatava com a Costa Rica. A vitória ou empate significava a volta para o Mundial, depois de duas copas sem representação. Era um momento importante, eu não tinha dúvida disso. Néstor que é jornalista no Brasil também, não esconde seu sentimento de torcedor da seleção. Se classificar com um empate é feio _conclui Néstor, alguns minutos antes do gol do Uruguai.

_Viu, enquanto o Uruguai fazia um gol, uma mesa de brasileiros se levantou para aplaudir, Álvaro estava retorcendo seu arame, levantou a cabeça para olhar a agitação e voltou a modelar as letras que escrevia _ narra Néstor, ao descobrir o diferencial da história que ia contar nessa noite no Jornal A platéia, um dos únicos bilingües do Brasil.



O jogo acabou. Eu estava impressionada e feliz com tantas informações. Mais uma vez defendendo a ideia de que só vivências nos fazem jornalista, antropólogos, e tantas outras formações, de verdade, com essência, que sabe identificar do nada, no sutil, aquilo que dá sentido para uma nova visão, para o não habitual. Por fim as bandeiras se ergueram, a avenida Sarandi foi inundada por uruguaios a comemorar a classificação, o azul, branco e amarelo tomou conta. Parecia a final de uma copa de mundo no Brasil, mas diante do fato de que eles estavam há duas copas fora dessa, a festa era merecida.

Y Yo estaba aquí!!! Gracias!!!

Tuesday, November 17, 2009


O "jeitinho" é brasileiro - o "pancho" com tempero bem uruguaio.

O gosto apimentado do pancho de Seu Jesus. A troca de língua que acontece naturalmente diante de um passante ou outro. Todos velhos conhecidos. O sotaque, o portunhol e o "as ordens" moça. Dois anos já se passaram da primeira vez que estive aqui em Livramento - Rivera, em campo. Lembro-me perfeitamente da minha confusão inicial ao não saber o que buscava, quanto menos o que me esperava. Foi tão pouco tempo, mas hoje me dou conta que foi intenso. É bom estar de volta. E parace que as coisas não mudaram por aqui:

_Ah menina, mudou coisas por aqui_hablas seu Jesus desbancando minha primeira hipótese.


Aos poucos retomando velhas conversas, e querendo saber das novas, me dou conta que realmente muita coisa mudou, não somente na política de um lado ou de outro da fronteira, que apresenta mudanças significativas na paisagem, mas especialmente na vida deste homem, meu principal informante. Seu Jesus é o típico "homem de fronteira" que eu procuro. Não é desses que anda à cavalo, nem que usa bombacha, o máximo que ele faz ligado ao "gauchismo" - esse imaginário ligado ao homem de fronteira - é tomar um mate ao meio-dia, agora com uma cuia de copo de vidro, muito bem revestida em couro trabalhado. Ele é desses homens que caracterizam o que me atrevo a entender como "espaço vivenciado, compartilhado" por estes sujeitos que com ligações fraternais de um lado e de outro da fronteira, fazem com que está fronteira seja assim tão "simbólica". Os marcos estão ali postos diante de todos para a afirmação dos estados-nação que permeiam a relação explícita, implícita. Mas, os sujeitos estão ali sentados na praça tomando um mate, conversando um pouco em português, hablando em espanhol.

E eu, uma jovem pesquisadora, me sento na ponta do banco, sou convencida a comer um pancho bem apimentado, afinal, a malandragem nas conversas, e discursos que circulam por aqui são bem do "jeitinho" brasileiro, mas a mostarda; a salsicha; o pão; o pesto são todos bem uruguaios. Eu nem acredito que comi um pancho sem me assustar ou temer com o tamanho da salsicha, e eu nem acredito que o meu reencontro com estes personagens está se dando de uma forma tão interessante. É... as coisas mudaram por aqui, mudaram com Seu Jesus, com Dona Angélica, com a jovem Gabriela, que teve um filho ontem, e comigo. É... as coisas mudaram muito comigo também.

Eu confesso, a sensação de reencontrar essas pessoas, de reencontrar essa fronteira, de me reencontrar em meio a tudo isso está sendo uma das melhores sensações que já senti...Eu gosto de fronteiras, eu gosto de ultrapassá-las.


Fico mais uns dias por aqui, por isso quem quiser vai me acompanhando nessa viagem etnográfica, mais do que isso...muito mais!!!!

Friday, November 13, 2009

eu me fodo...mas me divirto...


Mudança sempre me despertou algumas curiosidades interessantes, ainda mais quando não se faz a mínima ideia de quem sejam as novas pessoas que você vai morar. E quase sempre foi assim, nestes últimos sete anos, longe da previsibilidade do "doce lar" de papai e mamãe. Mas, confesso que depois de sete anos, entre ir e vir, entre conhecer e desconhecer diferentes pessoas - com suas manias, seus humores, suas limitações - ando meio cansada dessa história. Que nada, ninguém manda não estar trabalhando ainda, num emprego fixo aos 25 anos. Se quer estudar, fazer mestrado, então aguenta no osso do peito e recomeça tudo de novo.


Ok, mas eu queria um cantinho só pra mim: correr pelada pela casa, ouvir as músicas mais loucas, e ecléticas sem ser questionada, dançar no meio da sala..essas coisas...Tudo bem fica para os trinta quem sabe, por que até lá, é escolhas e mais escolhas. Mas me dou conta, então, que sou nova ainda, e que não é um lugar que faz as pessoas, tem tanta gente que aos 40 anos ainda não achou seu lugar, quanto menos o que esperar dele, acho que me encaminho para isso. Enfim...Mas ontem me mudei de novo, o retorno à UFSM, agora ao menos evolui na escala dos estudantes, tenho um quarto só para mim. Aqui fora depois da meia-noite se ouve barulho apenas dos grilos, já senti saudade da esquina barulhenta no ouvido, da gurizada no bar da esquina comprando mais uma canha. Aqui tudo se faz silêncio..e isso é bom, muito bom....por que eu estou em silêncio. Perceberam?


No entanto, o mais divertido foi o processo de mudança, aliás o frete que arranjei. Não sou muito de pesquisar preço, e nem ia ser com uma camionete de frete que ia me dedicar na pesquisa, pois ainda estou por entender a fórmula da pesquisa quantitativa de Survey. Por isso botei o olho na primeira camionete azul estacionada na Rio Branco, já acertei preço e era isso. Nem me dei ao trabalho de ver o estado do tal transporte. Primeira constatação: era muita coisa para pouco espaço. Segunda constatação: não chegaria até a universidade. Terceira constatação: ia me divertir muito.


E assim, o foi, devagarito empilhamos tudo na camionete, depois mais devagarito ainda nos deslocamos até a universidade. O dono do veículo era um senhor já de idade, que não podia mais dirigir, usava um óculos escuros mais "style" que o meu gigante. Fumou seu cigarrinho na minha cara durante a meia hora de "viagem" até o destino final. Que nada, cliente não precisa estar satisfeito. Junto com o velho, seu motorista, e ajudante. Um jovem calado, que teve que fazer umas 5 ligações diretas na tal camionete, que não sabia ler placas e era orientado pelo velho, que ouvia calado os "xingamentos", e ainda devia receber muito pouco por todo aquele esforço no final do dia.


É amigos, mas eu sei que vida na boléia, dependendo de frete não é fácil. Assim como não é fácil fazer mudança de tempos em tempos. Assim, como não é fácil recomeçar o convívio com pessoas estranhas. Mas, apesar de nada disso ser fácil, tudo pode ser ao menos divertido, se estivermos um pouco dispostos a fazer com que as coisas sejam melhores....Ai, ai, ai...eu me fodo, mas sempre me divirto...

Saturday, November 07, 2009

O monstro do milharal - e as rosas do quintal!!!

Eu confesso tenho memória curta. E isso não é nada interessante, há muitas coisas da minha infância que simplesmente não consigo lembrar. Frustante? Sim, ainda mais agora que entendo o quanto minha infância foi interessante. Mas, volta e meia lembro de algumas peripécias daquela época, e aos poucos algumas memórias táteis, olfativas, gustativas vão vindo à tona. O sabor do feijão da minha avó, por exemplo. Do esfregolão de milho no meio da tarde em dias de chuva, essas coisas. Mas eu lia muito quanto criança, quando adolescente muito mais. Já devo ter contado por aqui, que sempre quis ser escritora, por isso eu vivia muito cada história. Acho que lembro melhor delas, dos seus personagens, do que algumas histórias e personagens reais da minha infância.

Mas, eu vivia com mais umas 5 crianças, éramos primos. E criávamos todos os dias inúmeros personagens, alguns fantasmagóricos. Nunca me esqueço do "monstro do milharal". Nunca contei? Ah, não acredito. Foi assim: Era uma vez, uma tarde de fazer marmelada lá fora (entenda-se marmelada, não de marmelo, mas de qualquer fruta. Só mais tarde, fiquei sabendo que marmelada é de marmelo. Figada é de figo, perada é de pêra, e assim por diante. Assim como, só fiquei sabendo bem mais tarde que "doberro que o gato deu" é do berro que o gato deu, heuahaua, eu me divirto comigo mesmo...Sou inocente, gente, acreditem). Bom, mas como ia dizendo, se reuniu a vizinhança, para a tarde da marmelada. Colhe as frutas, descasca as frutas, faz fogo lá fora, se limpa o tacho, coloca as frutas no tacho, ferve, ferve, coloca açúcar, às vezes um pouco de água...e mexe...mexe...mexe...E a alegria da criançada era se lambusar com as rapas no final do tacho, quando tudo estava pronto.

A estrada do lado do milharal

Enquanto as mulheres preparavam a marmelada, nós brincávamos de casinha atrás do paiol, debaixo das árvores, do lado do milharal. Nossas casas tinham tudo: cozinha, sala, quartos e inventávamos histórias mirabolantes, baseado em histórias reais, ou que víamos nas novelas. Existiam conflitos existenciais, amorosos, momentos de festa, de tristeza. Eram nossas histórias, nas nossas casinhas. Histórias de gente grande, reinventada por gente pequena. Mas, eis que um dia quando ao acordar, tivemos uma surpresa, nossas casinhas estavam todas desarrumadas, objetos quebrados, portas caídas..um caos. Entre várias hipóteses numa de nossas reuniões para tentar descobrir quem estava destruindo nossas "casinhas" chegamos a conclusão que o mal vinha do milharal. Sim, tínhamos certeza que um monstro habitava o milharal alto, verde, fechado.

Então, enquanto as mulheres continuavam fazendo a "marmelada" decidimos duelar com o monstro. Juntamos sacos de cáquis da frente de casa, e fomos para nosso posto de ataque, a porta entreaberta da estrebaria (hoje ela nem existe mais). E começamos a jogar muitos cáquis para os lados do milharal, acreditávamos que o monstro seria atingido de alguma forma. Eis, que para nossa surpresa alguns cáquis começaram a voltar. O susto foi geral. Ele existia mesmo, corremos para frente de casa, onde as mulheres mexiam o tacho de "marmelada", e chamamos nossa prima mais velha Andréia (é a mãe do bêbe lindo que aparece numas postagens abaixo) para um canto e lhe relatamos o acontecido. Minha prima que já era uma mocinha, não acreditava mais em papai-noel, quanto menos em monstro do milharal, mesmo assim, resolveu por a prova nossa história. Voltamos para nosso posto de ataque, ela ficou escondida de longe observando, queríamos mostrar que os cáquis estavam voltando, que o monstro morava ali na lavoura de milho. Jogamos, jogamos, jogamos e nada, o monstro não deu nenhum sinal. E minha prima muito indignada nos deixou ali sem entender.

Confesso, que até hoje não sei ao certo se o monstro existia de fato, ou se ele era minha prima Andréia, ou meu irmão Màrcio que estavam sacaneando com a gente. Bom, eu acredito em histórias, em ficções, vivo criando e recriando as minhas próprias. Impressionante, às vezes só muda os personagens. E mais do que me lembrar das peripécias da galerinha reunida na infância, eu me lembro das histórias dos livros....minha memória fotográfica de cada lugar, cada rosto da triologia O tempo e o vento é impressionante, Érico Veríssimo ficaria impressionado com minhas densas descrições. Eu sinto o balanço da cadeira de Bibiana, nas noites de vento. Eu sinto a apreensão no cerco ao sobrado. Eu ouço a flauta de Pedro Missioneiro. Eu vejo Ana Terra no tear. Eu lamento não ter conhecido Rodrigo Cambará, ter tomado uma cachaça no bolicho.

Eu vejo Clarissa no balanço debaixo das árvores no quintal. Eu tento desvendar o mistério do caso dos dez negrinhos, de Agatha Cristhie. Eu vejo ela se encontrando com ele na cozinha na noite da missa do galo. Enfim, eu tenho guardado fotograficamente todos as sensações que envolvem essas histórias, essas personagens, esses livros.

As rosas no quintal em frente ao milharal

Aí, cresci, fiz jornalismo, acreditando que era o caminho para ser escritora, como relatei para um amigo na noite de quinta. Hoje, quero ser também antropóloga (literatura, jornalismo, antropologia, é tudo muito mais próximo do que imaginava) tenho tentado retomar minhas leituras de literatura...deixei elas guardadas no tempo...hoje elas me fazem falta para escrever, para imaginar, para te ler, para me ler...

Por que essa postagem? Não sei, me deu vontade de escrever sobre isso ontem depois de passar a noite de sexta em casa assistindo documentários, lendo livros, sem vontade de sair...olhando para umas rosas pequeninas vermelhas e uma botão de rosa rosa entreaberto, do lado ainda um bilhete do principal personagem, da atual história....Que se passa, com me???

Tuesday, November 03, 2009

Resquícios do Oscure Faith Festival VI - Santa Maria - RS




O zunido no ouvido permaneceu durante todo o dia de ontem. Confesso era a primeira vez que passava 5 horas da minha vida imersa no meio do som metal. Uma experiência mais do que interessante para quem gosta de conhecer coisas diferentes do habitual blues, MPB, e essas cositas bem leves aos meus tímpanos. No palco seis bandas, até mesmo da França. Caras pintadas, todos de preto. Cabelos compridos e um único embalo: a corpo parado, mas o pescoço e a cabeça num ritmo "doidão".





Fotografar no DCE também não é uma das melhores experiências. Isso se deve ao fato de que a escassez da luz incomoda quem não gosta de usar muito flash. Ah, mas o flash, às vezes é bacana, rende mais do que o imaginável. E por isso para mim tudo foi descoberta e brincadeira. Me diverti muito com o metal extremo, com as cabeças balançantes e ainda experimentei estéticas que estou trazendo um pouquinho por aqui. Por que há que se ser versátil nessa vida, sempre dando sentido de descoberta.

Bah Homero, agora eu entendo a poesia da tua música, heheheh....