Por uma páscoa quase profana...
Na vitrola três vezes a mesma música. Coisa da madrugada desafinada. Já arrumei mais uma vez a mala, na verdade que há tempos ela nem é desarrumada. E o fato dela estar ali intacta desarruma toda minha alma. Sinto saudades...É páscoa...a estas horas nos outros velhos tempos da minha infância participava da vigília a Jesus preso e que amanhã será crucificado. Cheiro de marcela logo na manhã fresca. É minha vó que anda pela estrada de chão a colher a planta amareladiça. Dia de jejum, e que importância tem: tomar café neste dia? Na verdade que eu adorava aquele dia. Era dia de peixe. Peixe lembrava meu avô pescador que não cheguei a conhecer, mas que tantas de suas histórias a tinha ouvido contar. Ah, se o tivesse conhecido...o que dizem é que era um dos homens mais bondosos do pequeno e distante lugar.
Sou egoísta. Sim, admito. Deveria talvez largar tudo e ir ver meus pais e meus irmãos nestes dias. Escolhi egoisticamente viajar de forma descomprometida. Logo cedo falei com ele, que com a voz mais doce dos últimos anos me enche de questionamentos: mas tu vai de avião? E vai ficar sozinha? Vai ligar quando chegar? Que tem lá em Ouro preto? Perguntas que são invadidas por seu humilde desconhecimento de um outro mundo. às vezes queria tanto trazer meus pai para mais junto de mim. Depois ele me conta do início do seu tratamento. Me diz que enfiaram nele um monte de coisas pelo umbigo e que ele decide não se operar...Não sei o que pensar...Sua voz era doce...doce como a carapinha que não vou comer com ele nessa páscoa. Mas lembro dele quando me erguia pequenina para beijar os pés de Cristo pregado na cruz, hoje isso já nem faz mais diferença...Lembro, da minha dinda me contando que mijava em pé e dizia para todo mundo que queria ser igual ao meu pai. Talvez, isso explique muita coisa na minha vida, não tenho um pau no meio das minhas pernas, mas perdão as feministas...eu queria ser igual ao meu pai...Hoje eles completam mais de 30 anos de casamentos...nós, na verdade nunca lembramos...minha irmã mais nova que volta e meia liga para nos alertar...
Mas eu decidi viajar sozinha para um encontro com a grande amiga Michele Dacas, gostamos, às vezes de estar assim longe de tudo e de todos. nas nossas cúmplices histórias de desamor e desapegos...A última vez que estivemos juntas viajando foi em estradas do Chile: neve, cordilheira, a boléia de dois caminhões, poesias de Neruda pelo canal 5, dias da morte de Michael, gripe A, sem comunicação por 3 dias. Um tapa na cara e mais amor entre nós. Viajarmos juntas sempre é um risco, menos mal que agora é de ônibus por menos de duas horas e de trem pela Estrada Real. Prometo meu pai que beijo os pés de 'cristo' pelo caminho...
Bora lá para mais uns dias na estrada...e nada pode me fazer mais feliz!!! Aliás, mais feliz só vendo meu paizinha bem logo de novo!!!
