Thursday, April 05, 2012

Por uma páscoa quase profana...
Na vitrola três vezes a mesma música. Coisa da madrugada desafinada. Já arrumei mais uma vez a mala, na verdade que há tempos ela nem é desarrumada. E o fato dela estar ali intacta desarruma toda minha alma. Sinto saudades...É páscoa...a estas horas nos outros velhos tempos da minha infância participava da vigília a Jesus preso e que amanhã será crucificado. Cheiro de marcela logo na manhã fresca. É minha vó que anda pela estrada de chão a colher a planta amareladiça. Dia de jejum, e que importância tem: tomar café neste dia? Na verdade que eu adorava aquele dia. Era dia de peixe. Peixe lembrava meu avô pescador que não cheguei a conhecer, mas que tantas de suas histórias a tinha ouvido contar. Ah, se o tivesse conhecido...o que dizem é que era um dos homens mais bondosos do pequeno e distante lugar.

Sou egoísta. Sim, admito. Deveria talvez largar tudo e ir ver meus pais e meus irmãos nestes dias. Escolhi egoisticamente viajar de forma descomprometida. Logo cedo falei com ele, que com a voz mais doce dos últimos anos me enche de questionamentos: mas tu vai de avião? E vai ficar sozinha? Vai ligar quando chegar? Que tem lá em Ouro preto? Perguntas que são invadidas por seu humilde desconhecimento de um outro mundo. às vezes queria tanto trazer meus pai para mais junto de mim. Depois ele me conta do início do seu tratamento. Me diz que enfiaram nele um monte de coisas pelo umbigo e que ele decide não se operar...Não sei o que pensar...Sua voz era doce...doce como a carapinha que não vou comer com ele nessa páscoa. Mas lembro dele quando me erguia pequenina para beijar os pés de Cristo pregado na cruz, hoje isso já nem faz mais diferença...Lembro, da minha dinda me contando que mijava em pé e dizia para todo mundo que queria ser igual ao meu pai. Talvez, isso explique muita coisa na minha vida, não tenho um pau no meio das minhas pernas, mas perdão as feministas...eu queria ser igual ao meu pai...Hoje eles completam mais de 30 anos de casamentos...nós, na verdade nunca lembramos...minha irmã mais nova que volta e meia liga para nos alertar...
Mas eu decidi viajar sozinha para um encontro com a grande amiga Michele Dacas, gostamos, às vezes de estar assim longe de tudo e de todos. nas nossas cúmplices histórias de desamor e desapegos...A última vez que estivemos juntas viajando foi em estradas do Chile: neve, cordilheira, a boléia de dois caminhões, poesias de Neruda pelo canal 5, dias da morte de Michael, gripe A, sem comunicação por 3 dias. Um tapa na cara e mais amor entre nós. Viajarmos juntas sempre é um risco, menos mal que agora é de ônibus por menos de duas horas e de trem pela Estrada Real. Prometo meu pai que beijo os pés de 'cristo' pelo caminho...
Bora lá para mais uns dias na estrada...e nada pode me fazer mais feliz!!! Aliás, mais feliz só vendo meu paizinha bem logo de novo!!!

Sunday, April 01, 2012


Uma árvore antropofágica...verborágica e ácida!!!
(com rimas pobres e sem estilo)

estar assim em silêncio
uma estrada que corta, que corre dos lados...
pelos poros distintos se faz a distância
de tempos, em tempos...
somos assim a correr memórias lacunares do tempo/espaço
ele também supõe versos
mas são todos desconexos
assim como a vontade de deslizar descrentes pensamentos
sobre o mundo
olho mais um pouco
insana vontade de adentrar mais
nas verdes constelações que a mitologia explica
uma sede incontrolável das suas linhas
mas são os calos nos pés que estou a lamber...
um gosto de lonjuras cristalizadas
Ficar assim parado neste tempo invariável que seduz
uma jovem insatisfação crônica
nos acompanha
olhos castanhos esverdeados são d0s meninos que aí também estiveram
mas quem mais chupou aquele mel quente da madrugada??
e elas ficam intactas
passam são os senhores da história
os buracos afundam as pernas, e no entorno dos olh0s
as rugas pintam teus sonhos desalmados
nem filmes, nem fotografias, nem mais resquícios de sua literatura
escrevo vorazmente da mesma forma que como chocolate de uma forma compulsiva.
cadê o prince poeta que descoloriu minha noite de azul?
voou, voou, mas nem de asas o vi olhar para a janela lateral
estávamos no quarto de durmir
lá fora tudo ainda verde gritava
volta e meia uma mão doía em meus braços
gritos no chão do banheiro...estava ali a desvencilhar estas ranhuras
doentias posses...assim como nos apossamos de imagem na janela
são estradas todos os sonhos,
são estradas todas as árvores em forma de gente que passam pelas tardes.
passaste de verde mística para azul contos eróticos de prazer...
nem sonhei,
nem desavizei aos descrentes que não sonhava
apenas dedilhava pensamentos incoerentes
vai ver que sempre foram assim desconxas as árvores que abrigo em meu corpo
elas não são poucas
são loucas insanas e ateias...
mas não são mais árvores que acordo na madrugada
agora são sinos que invadem os dedos miúdos.
Faz-se, silêncio,...escuto quando ecoa manso...
tan lejo no más....confunde-se também a verbalidade dos idiomas
toca, toca...
masturba meus ouvidos latejantes...
devagar para que invada estranha
como se fosse uma primeira vez...
um sexo, uma árvore...um sino...
soa, soa...
atrás da casa nova dos meus sonhos...
constelação de óriun que fizeste comigo
uma flecha no guerreiro que longe nas águas de teu mar ia longe
mas sou caçadora e os olhos embaralhados não destinguem mais a caça distante
a que me condenaste...?
mas isso afinal não era apenas a história de uma árvore?

Tuesday, February 07, 2012

A arte do reencontro...e das pernas que redemoinham sob mesas...

Os dias estão assim: repletos do suspiro da 'arte do encontro'. Em alguns dias mais, em alguns dias bem menos. Mas sempre há espaço para o encontro carnal, sensível e porque não, de todo palpável. Apesar de que...quem me conhece sabe muito a dificuldade que tenho de lidar com esta história de tato. Boa história de filme. Mirar el mundo é mais fácil para mim, do que tateá-lo.

Estes dias que são filmes. Coloquei meu repertório cinematográfico quase em dia. E ressalto que são as histórias mais simples, singelas e que tratam desses encontros 'palpáveis' e sinceros que me fizeram sair do cinema chorando...Mas, no fim das contas foi numa dessas últimas noites que no Tele cine Cult me reencontro com 'Eterno Brilho de uma mente sem lembrança'...Pronto. Um prato cheio para divagação de madrugada. Óbvio que já vi o filme umas 3 vezes, mas sabe que eu acho que pensei algumas vezes em escolher que este filme fosse de verdade. Mas, se fosse possível apagar alguém, algo, uma situação, um momento da vida de nossa memória, como seriam os reencontros?

Hoje tive uma grata surpresa em Porto Alegre, dessas que salvam o dia, os dias...e dão sentido para nossas boas e intensas histórias (essas histórias em que às vezes brincamos demais com a vida, com as nossas vidas). Me ligaram às 11h45min, estava em reunião. quando vi a chamada não tive dúvida que aquele número não me era estranho. Engraçado continuava o mesmo, o número, o tremor nas pernas, a voz perdida...Fazia tempo que não o via...volta e meia arriscava procurar alguma referência nas redes sociais. Afinal, sou assim mesmo, gosto de me desapegar um bom tanto do passado. Tem gente que fica a redemoinhar as coisas que viveu e que não viveu...Eu até lembro... é fato, me lamento um pouco sim pelo que deixei de viver, mas o que vivi já foi tão carnal, que é bobagem qualquer forma de martírio.

Talvez nunca tenha descido tão rápido até o mercado público de Porto Alegre. Tínhamos não mais que meia hora para colocar em dia saudades de quase 'anos'. Os olhos continuavam verdes e úmidos, prenúncios de uma crônica. Mais cabelos brancos pelos lados...O sorriso - meio sorriso - o mesmo tom de humor (de fato o que mais gostava). E como sempre aquele câmera no pescoço....ainda lembro do primeiro dia que o vi, foi numa bicicleta que ele apareceu, fez uma das fotos mais lindas em contra-luz que tenho. Tempos idos de capoeira...Óh doce, leve Santa Maria....Que saudades tinha de ficar assim: a nervosar-me no almoço, a redemoinhar pernas trêmulas embaixo da mesa, a destocar os cabelos com mãos que vão e vem...e fiquei por aí a reencontrar-me em meia hora, aliás, sem grandes tatos nunca tivemos muito o dom de saber como nos tocar, a não ser entre aquelas quatro paredes em momento que é inevitável o toque.

ok, ok...já é tarde da noite e tudo isso pode ser apenas parte de um sonho que estou tentando apagar. Mas e se o almoço de hoje aconteceu de verdade? Possivelmente o tenha escondido em alguma parte da minha memória e dos meus sentidos que a 'máquina da vida' foi incapaz de apagar, aliás, de o tocar...

Gosto disso, do gosto doce amargo desses reencontros. Mas já é hora de irmos? Sim, tempo para um sanduíche natural e uma coca-cola (ele, óbvio) um suco natural de laranja (eu, óbvio)...No fim das contas, tudo continua quase igual!!!!

Sunday, January 29, 2012

Em janeiro foram caminhos correntinos...me apaixonei, me re-apaixonei, me desapaixonei...


Nega Gezebel me disse na madrugada azul que janeiro já tinha passado por aqui...Olhei para os lados irrequietos e sim já tinha entendido que janeiro passou. por ali também E eu nem consegui ainda desfazer minha mala. Na verdade que gosto mais de fazê-la...mesmo que ultimamente ando arrumando a mala meia hora antes de viajar. é ...janeiro passou e dedilhou a espinha com intensidade, as entranhas nem quero comentar...Nas minhas mãos deixou saudade de um amor que não plantou...e se eu alimentar o doce querer de que renasças em mim.?..a vida de janeiro anda dando sinais de que será um grande ano de se plantar em mim...em mundo...em outros lugares...ano de plantar caminhos e andanças...

Em janeiro já andei por caminhos de Corrientes, com direito até a um passaporte correntino, noites cheias de chamamé. Pessoas que contemplam chamamé e isso emocionou-me sem medida. Tempo de se conhecer gentes, outras gentes, reencontrar outras, mas especialmente sentir saudades das que tiveram em noites azuis dezembrais... ME apaixonei de novo e meu coração ficou por la costanera correntina, com ares da capital federal. Tudo bem, sempre vou me apaixonar pelas gentes que acrescentam olhares úmidos nos meus dias. Ele comia um prato de salada de tomate com queijo, falava da falta de boas histórias. e sorriu....aquella sonrisa... Me apaixonei denovo, mas fomos embora depois de um abraço. Como encontrar-te agora, sonhador?. Também em janeiro me re-apaixonei, fiquei longe, senti saudade, encontrei sentido...Um abraço forte no meio-dia e admito como estava com saudade de ti em janeiro. Mas no fundo, sinto saudade inquieta das madrugadas de outros tempos...sei que andas por caminhos de sotaques distinstos dos meus...e te espero com as mãos quentes para que regogite um amor, ou apenas uma poesia de ver o mundo com intensidade. Quanta saudade é possível guardar em mim, (divido elas com Gezebel)? Foi também em janeiro que me desapaixonei, sem ter dado tempo de me apaixonar. Não gosto que curtam tudo que sou e que faço, não sou este mar de perfeição para que me idolatres sem provar do meu fel...e às vezes sou mais fel do que mel (perdoa-me mundo, mas sou, também fel, por isso me escondo e não gosto quando me encontras a insistir em atenção)...


Janeiro nem passou todo rápido ainda, e já deixou tantas inquietudes com o mundo e a reafirmação de quem um outro mundo é possível. Sim, nós sempre acreditamos, quando na juventude que era possível. Eu na verdade, confesso que não teria sentido na minha infância se não acreditasse que OUTRO mundo era possível, se bem que acreditava que ele ia em sentido contrário do que via nos mapas. Coisa de criança..um dia vou lhes contar com sempre fui do avesso. Dias de Fórum Social Temático em Porto Alegre, vontade de fazer mais malas e sair a andar, por que não se pode falar de mundo, de problemas, de soluções, sem sentir cheiro de gentes e gosto de suas mazelas e de seus estados circunstanciais de felicidade. Não se pode e não acredito em que tem apenas discurso, quase nada de empirismo...Gosto de lirismo e de sonar poético, mas ele não tem verso se não tem cheiro, gosto, calor de gentes e de seus mundos. Meu irmão Rafael Wilhelm esteve por aqui reascendeu a vontade de acreditar no outro, no privilégio que temos de poder acreditar que é possível fazer mais...

Janeiro já passou, e às vezes ele foi duro quando me ensinou que há que se viver com mais intensidade e verdade na alma, por que de repente, não mais que de repente a vida dá duros golpes. Descobri este mês que sinto medo de perder meu pai por uma doença...sinto medo, muito medo de que a vida seja curta demais para dizer o quanto tenho vontade de amar...

Foram todas as coisas de janeiro...quando fevereiro vir estarei com meu coraçã oaberto, minha alma continuamente inquieta, meu mundo como sempre com insatisfação crônica, afinal tudo isso me faz viver um ano mais de caminhos...ano de caminhar e de sentir saudades....EStava certa Gezebel em me dizer que janeiro já passou, melhor assim pq em fevereiro é tempo de carnaval, samba e a vontade de mar....
é tempo de te dar minhas mãos em concha para que aconchegues teu mar de vontades de renascer...

Sunday, January 08, 2012

Já começou...?

Burbúrios por todos os lados. Um silêncio ensurdecedor nas minhas entranhas 'entravadas'. O vento bate nas folhas, nas águas paradas e nestas franjas que andam amarrotadas. O silêncio desenha no café. Das frases sei que restam: 'que nas histórias de amor, não há apenas o amor'. Há, também, estes silêncios burburantes de tardes com aroma de café. Tem vento de lenta poesia que inebria e engana as franjas. Tem águas de rios parados que nas nuvens andam...andam no sentido de andar...tem, por fim, menina inquieta que brinca de ser gente grande...

2012 já começou e esta inquietante visceralidade de viver nem me deixou sentir que cá ainda estamos! Um lindo ano para todos!!

Friday, December 23, 2011

A prática do desprendimento e do desapego. Relatos de viagem. Ares de Rio de Janeiro.

Desprendimento e desapego são palavras que vêm rondando minha cabeça nestes últimos dias. Penso em amor com desprendimento e amor com desapego: como se ele fosse um botão acionado em nosso corpo/alma e assim estaríamos aptos a viver com desprendimento e desapegados. de tudo e todos. Duas palavras fáceis e bonitas em teses, em teorias, muitas vezes até nos diálogos práticos. Mas convenhamos sem falsas filosofias: desprendimento e desapego são exercícios diários de um alterego desassossegado.

Resolvi comprar minha passagem ao Rio de Janeiro esta semana. Tive sorte (como sempre) consegui há menos de 2 dias de viagem ainda um preço bem especial de ida e volta. Decidi que iria pedalar dois dias no Rio. Num ato de total desprendimento e desapego, afinal, ando apegada demais a uma rotina sufocante e prendida demais aos fantasmas do 'estar no mesmo lugar' por muito tempo. Hora de estrada. De cheiro de aeroporto. De ser/estar erodar sem grandes preocupações. Na mala, desta vez, quase nada. A menor mala que já tive...diria que nem as expectativas são tão maiores. Sabe quando apenas dá vontade de ir durmir fora e longe de casa? Sim, é isso. Viajar sozinha às vezes é tudo que se precisa e internalizar os desassossegos da vida. E como todos já sabem, por aqui (em mim) eles não são poucos. O bom de viajar sozinha e sem intenção de fazer grandes amizades é o poder do desprendimento e desapego ao anonimato. E não digo do meu anonimato, que por sinal estou longe de sofrer com a falta dele. Mas, o anonimato das pessoas com quem converso. O tio que juntava o lixo da praia no final do dia e me desejou um ótimo natal. O salva-vida lindooo do posto 1. A senhora do aeroporto que há 4o anos andavam em bondinhos, não em peruas.

este anonimato me dá apenas a margem e liberdade de me apropriar de suas breves histórias e entender em suas rugas pequenas biografias. No Rio está tão quente como o sul, no Rio algo está a latejar...Pulsamentos divagantes de quem quer apenas caminhar, pedalar, caminhar, sem muito conversar, sem muito ter que refletir sobre as coisas...Mundo...dá pra me deixar em silêncio?

Mas, vocês não fazem ideia de qual é o maior desprendimento desta viagem...Até as oito horas da manhã de hoje, não tinha certeza se conseguiria viajar com minha canon 7d. Já estava conformada e consegui emprestado uma Sony Cyber-shot. No fim, acabei conseguindo trazer a minha câmera e também a do Cris, mas não é que decidi me desapegar do peso da minha câmera e me adentrar no mundo 'cybershotiano'. Decisão difícil, pois, confesso não sei fotografar com estas câmeras que não são DSRL'. Sorte minha, claro, desde cedo ter tido a oportunidade de ter uma clássica Zenit com uma belíssima 50mm, coisa para poucos. Mas, fotografar com uma câmera digital 'comum' é o exercício de um outro tipo de olhar, que não depende só de limitações técnicas, mas sim, de um novo olhar, de uma nova forma de enquadrar, de dar cor, forma, constraste ao que praticamente não se tem como controlar...Odeio este modo automático da vida....

Bueno, ao final do dia com as fotos que fiz, sem o peso da minha 7d cheguei a conlusão que de fato o olhar é que faz fotos (divagação filosófica para quando voltar). Por enquanto, quero ordenhar nuvens, ludibriar areia....E como gosto de ver a sombra da água do mar se dissipando na areia. è uma bela foto para se imaginar....sem ter que se clicar....

O mar vem...bate na areia...deixa sua gosma...aos poucos se desfaz como poeira...eira, eira...estou na mar, bem na sua beira...

Um verso para finalizar a noite, hora de sair para a rua atrás do samba que anda a batucar nos meus ouvidos...Sozinha. Problemas com isso? Dois: 'os homens continuam a questionar como podem mulheres viajar sozinhas (interpelação de dois taxistas no dia) e eu continua sendo confundida no meu próprio país como turista americana, irlandesa e até francesa...

Good, Good Night...ao ouvir uma americana aqui do meu lado falando com sua família via skipe. Como adoro um hostel...

Saturday, December 17, 2011

Capítulo 10 de uma longa história madrugosa...

Tudo começou com Homero Pivotto - Capítulo 1.
O capítulo 2 fico com Alexandra Zanela
O capítulo 3 seguiu com o Tigre
O capítulo 4 ficou por conta do Chagas
No capítulo 5 Fani
No capítulo 6 foi a vez do Márcio Grings
No capítulo 7 Tati Py
O capítulo 8 Fernanda Meneghel conta mais...
No cápítulo 9 Ana Bittencourt me convoca....

E eu depois de dois anos com o peso na consciência por ter quebrado esta corrente, retomo no cápítulo 10 a história daquela longa noite de Ferreira por entre ruas, segredos e que bela história. daquelas que só se vive sob efeitos piscóticos, ou então quando se junta este povo bem louco, que um dia estiveram juntos em muitas noites, hoje, todos por aí conseguem ainda se reencontrar nessas histórias. SEguimos a saga, então! E passo a bola para Carolina Carvalho continuar....


Capítulo 10 - Parado na porta...um lapso de memória

Que longa noite aquela. Fria. Ferreira só queria beber mais um pouco de vinho sossegado. E a essas alturas parado na porta de Rouxinol, não consegue entender exatamente quando foi o ponto de virada da sua história. Nessas alturas a madrugada estava com teor mais doentio do que os próprios filmes de Almodóvar e isso que ele nem tinha conseguido assistir ainda ‘A pele que Habito’. No fundo, acho que ele preferia mesmo que seu filme ‘madrugoso’ tivesse sido menos dramático e beirasse as antigas comédias de Wood Allen. Pensou que tudo isso poderia ser apenas o efeito da erva nos seus pulmões, depois de fumar aquela ponta no início da noite.

Mas, porra! Ele fumava maconha a mais de vinte anos e não poderia ser ela responsável por todas as visões que teve esta noite. Visões? Melhor se assim o fossem, agora mais do que nunca, no alto da escada do cortiço, ele sabia que tudo que viu não tinha nada de ilusório. Nem mesmo a cena hilária de um anão vestido de cowboy montado num pônei (a cena era ainda mais hilária quando o anão, pelado, dormia com a puta de vestido branco). Plácido Fortes estava certo quando, tantas vezes, o advertiu sobre aqueles obscuros segredos das noites pelas redondezas do Bairro. E, também, convenhamos Ferreira estava longe de conseguir criar imaginações tão férteis como as situações que acabara de vivenciar.

E agora para completar estava com esta obsessão na vingança à Dolores. Ferreira de costas ao pé da porta de Rouxinol, pensa que é uma única escolha e ele encerra a sua participação neste 'filme'. Poderia escolher descer aquelas escadas - num momento único de lucidez -, sumiria pela penumbra da madrugada e esqueceria que tudo isso aconteceu. Mas e a foto que arrancou das mãos de Plácido na hora de sua morte? E a promessa silenciosa que fez ao velho no banheiro do bar? Tudo estava ali atormentando seu resto de madrugada, até mesmo os resquícios de miolo do velho em sua roupa. Ele não poderia ignorar o desenrolar da noite, se era destino ainda não poderia entender, o fato é que Dolores não poderia ter entrado naquele quarto, e ele era responsável por tirá-lo dali.

É... mais uma vez se confirmava a frase que insistia em voltar na sua memória ‘nunca diga dessa água não beberei’, mas convenhamos já tinha bebido demais daquela água por esta noite. Mas quando água bate na bunda tem que aprender a nadar, não é mesmo?
Ferreira tinha visto toda a cena: o anão por mais escroto que poderia ser - e não ter seu órgão sexual nada avantajado-, parecia usar outros instrumentos como ninguém. A ponto de Ferreira ver Rouxinol aos poucos se entregando sem resistência num coito invejável para qualquer mulher. Maldito anão – esbravejou em silêncio. Virou as costas para a cena do casal dormindo e (depois de um grande lapso de memória...) avista o pônei que inquieto permanece ao pé da escada.

Estranha cena aquela: o pônei parecia mais nervoso que o próprio dono em busca da puta na noite. Ah, se este pônei falasse. Ferreira de imediato se deu conta que não tinha muito o que fazer, se invadisse o quarto, corria o risco de levar um tiro nos miolos, pois o anão segurava na mão (mesmo dormindo) um revólver. E morrer ainda é cedo para esta história – pensou. Olhou para o pônei, o pônei o olhou. Não rolou sentimentos, mas com certeza a dupla convicção de que eles não tinham parado ali por mero acaso. Será que Ferreira tinha descoberto o ponto fraco do anão?

(Um parêntese na história – já com parêntenses) Desde que o irmão mais velho decidiu criar pôneis, Dolores sentiu um alento na alma. Não só por que os animais condiziam com seu tamanho, ou por que seriam a porta de entrada para uma reviravolta financeira na suas vidas.
Mas pelo simples fato de que Dolores nunca teve um ‘bichinho de estimação’. Por toda rejeição que sofreu na vida, nunca acreditou conseguir se apegar a qualquer outra espécie viva. Mas aquele pônei tinha algo de incomum. Talvez tenha sido amor/tesão à primeira vista. E para quem nunca tinha conseguido se dar muito bem com mulheres, um pônei seria uma grande – aliás, pequena e condizente – opção. E sem falar que pônei não fala, não finge orgasmo e não precisa pagar R$ 100 reais por programa. (fecha parênteses)...

Ferreira tinha intuído que o pônei seria o caminho de sua vingança e mote para conseguir tirar Dolores do quarto de Rouxinol antes que o estrago da noite fosse maior...Cinco e meia da manhã ele desce as escadas, se aproxima do pônei que arredio dá um passo para traz, afinal ele não estava vestido de cowboy como o dono do bicho. Montar seria impossível, tudo bem que ele não era o homem mais alto e forte do mundo, mas não se arriscaria há uma ponalgada (se em cavalo temos uma cavalgada, em pônei temos ponalgada?) Pegou pela rédea do bicho e saiu pelo caminho apertado e contrário que entrou no velho cortiço. Pelas suas costas ao longe ainda restavam resquícios de fumaça do acidente; a porta entreaberta do quarto de Rouxinol – a bela do vestido branco. Para onde ele iria com aquele pônei? Boa pergunta! Esperava até a próxima esquina, entender qual era mesmo o seu grande plano, a única coisa que tinha certeza era de que o pônei era o caminho e ainda lhe restavam R$ 5 amassados no bolso....

Monday, November 28, 2011

Perdoa-me pelas contradições...

a escola era de madeira. Sala única: de primeira a quarta série. Fui-me indo pela estrada de chão, a arrastar os chinelos novos que ganhei da minha mãe...(as árvores da estrada, cheiravam a estas que rodeiam minha janela). Emburrada...sabia que queria ir à escola, mas prefiria, também, ficar por casa, nos arredores com meus primos. Éramos em oito primos do tamanho da turma da nova escola. No começo da tarde - horário das aulas dos menores - prof. Margarete dividia a atenção com todos da classe. Dom que sempre admirei, a ponto de querer ser profe também (vastos sonhos ideológicos das crianças - continuam a ser).

foi no primeiro dia que ela me olhou, no segundo também, talvez no terceiro, não tenho muita certeza do que lhe disse, lembro-me, apenas: chorei. Chorar nunca foi meu problema, aliás, em um pequeno tempo da minha vida foi a possível 'EXPLICAÇÃO' da minha timidez. É, parece irônico mas sou tímida a ponto de regogitar-me toda ao olhar pela fresta da janela. Aos desajustados golpes da vida (nem tão violentos quanto faço parecer) longe da estrada de chão do interior em que vivia: a vida aqui fora é menos calada e exige mais da gente. Exige menos lágrimas e refúgios em livros e mais destreza para olhar para fora da janela com o rosto solto ao vento...

mas, eu ainda prefiro ao silêncio das mãos úmidas e nervosas no começo da tarde. Chorar, como de antes com a professora já não deveria ser mais explicação para nada. Mas, perdoa-me aos sensatos do mundo do asfalto: eu não sei falar, escrevo entre linhas e nas linhas...de resto, na maioria das vezes, fica preso na garganta e então como que emergindo de um submerso de sonhos, elas: as lágrimas flutuam no meu intemperado desenho da face. E o desejo abrupto, intempestivo e sim, por vezes irresponsável, de deixar-me sexo a umidecer-me de querer-te mundo às voltas de estradas sinuosas e calejadas.

hoje, pedi perdão...Não sei se deveria, se completa caminhos abandonados em outros tempos. Pedi perdão por ser como sou, e sou assim, como diria Manoel de Barros '(...) o que não sei fazer desconto nas palavras'...e desconto, por isso escrevo miúdo, grande, evasivo, encarnado, por que sou como sou, e preciso escrever...chorar...falar pouco...para ser...os silêncios dos sulcos de minhas mãos/ das tuas mãos explicam-se em versos, em nada mais, por que o nada mais é olhar pela fresta da janela (sem exagero) deixar o olhar invadir-se pela luz devagar, de repente...e ponto, fechar-se nos dessassossegos que adentram madrugadas e suas doces loucuras...

nesse palavreado todo encontro-me com o livro de Cyro Martins (os de cabeceira, que aliás, ainda não devolvi a um velho amigo - perdoa-me também, às voltas de Santa Maria nos próximos dias...) 'O Princípe da Vila', que beira um romance, mas se traduz num causo da inércia e da loucura. Por que há uma obsessiva linha limítrife entre a inércia existencial/a dos sentimentos e a passível loucura de princípe que constrói mais pela fantasia do que pelos fatos da vida...

Finalizo, ainda em Manuel de Barros: 'Ai frases de pensar! Pensar é uma pedreira. Estou sendo. Me acho em petição de lata. Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos. Outras de palavras. Poetas e tontos se compõem com palavras'


Obs: 'Retrato Quase Apagado em que se Pode Ver Perfeitamente Nada' - Manoel de Barros (QUERIA TANTO PRODUZIR UMA SIMPLES FOTOS QUE TRADUZA ISSO...(uma breve obsessão))

'O Princípe da Vila' - Cyro Martins (meu primeiro roteiro de ficção adaptado - trabalhando arduamente... madrugada à dentro - entre as novidades de 2012)


02:25 da madrugada insone...Roteirizar é preciso, viver nem tanto assim!!